O último convite de um mestre

Por Jerbson Moraes — Advogado, mestrando em Direito e colunista político

Há ausências que ultrapassam o círculo da família. Instalam-se também no silêncio das salas de aula e das bibliotecas, nos corredores dos tribunais, nas instituições que a pessoa ajudou a erguer. A morte de Josevandro Reis Nascimento, aos 74 anos, tem esse alcance. Encerra uma trajetória em que o conhecimento se fez ofício, sempre a serviço da cidade.
Advogado, jornalista, escritor e professor, Josevandro pertenceu a uma geração que entendia o saber como responsabilidade pública. Ilheense, foi vereador, lecionou na Universidade Estadual de Santa Cruz, dirigiu o Cerimonial do Município e presidiu a Academia de Letras de Ilhéus. Fundou a Regional Sul da Associação Baiana de Imprensa e integrou instituições literárias e jurídicas que ajudou a manter de pé. Essa é a biografia que os registros hão de preservar.
Guardo dele outra dimensão. Fui seu aluno de Direito na UESC e, anos mais tarde, a advocacia nos reuniu no mesmo ofício. O professor tornou-se colega, e o convívio profissional acabou por gerar uma amizade que atravessou os últimos anos. Passamos a nos encontrar com frequência para conversar sobre Direito, política, literatura e sobre Ilhéus, cidade que ele conhecia como poucos e amava sem reservas.
A última dessas conversas foi no dia 11 de junho. Ele estava sereno, bem-humorado, com a lucidez que impressionava seus alunos. A certa altura, contou-me um desejo antigo: atuar comigo num Tribunal do Júri. Queria dividir a tribuna ao meu lado. Não se tratava de cortesia de ocasião, mas da confiança de quem passara décadas formando advogados e ainda enxergava, num antigo aluno, um parceiro à altura do plenário.
O encontro não chegou a acontecer. A tribuna que imaginávamos dividir ficou como projeto que o tempo interrompeu.
De tudo o que dele recordo, essa talvez seja a lembrança mais reveladora. Mostra o professor generoso, capaz de reconhecer no ex-aluno um igual, e revela sua paixão intacta pelo júri, esse território em que a técnica jurídica se mede pela palavra e pela capacidade de comover.
O legado não depende, porém, de um sonho inacabado. Está nos milhares de alunos que formou, nos livros que deixou, nas instituições que fortaleceu, no respeito conquistado ao longo de uma vida dedicada ao ensino. Josevandro não ensinava apenas em sala de aula. Ensinava numa audiência, numa reunião da academia, num encontro casual de corredor, em qualquer lugar onde houvesse alguém disposto a ouvir.
Recebo sua partida com tristeza sincera. Com ele se vai o professor que ajudou a formar meu modo de pensar o Direito, o mesmo homem cuja inteligência admirei enquanto colega e cuja amizade me honrou até os últimos dias.
Daquela conversa de 11 de junho não me esquecerei. Hoje entendo que, sem que soubéssemos, era uma despedida. Fica comigo uma dívida que o destino não deixou saldar: a de dividir uma tribuna com quem primeiro me ensinou o valor da palavra e o compromisso ético que sustenta o Direito.
Que Deus conforte sua família e seus amigos. E que o mestre Josevandro Reis Nascimento descanse em paz, certo de que sua voz seguirá ecoando nas salas de aula, nos tribunais e na memória de quantos tiveram o privilégio de aprender com ele.
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