O Sul da Bahia e a economia política do concreto

Por Jerbson Moraes

A inauguração da primeira etapa da BA-649, que liga Ilhéus a Itabuna, poderia passar por mais uma entrega de obra pública. Lê-la assim seria perder o essencial. O que se viu nesta sexta-feira, por baixo do vocabulário técnico da mobilidade e da logística, foi um gesto político: a consolidação de uma estratégia que devolve ao Sul da Bahia o centro da agenda de infraestrutura do governo estadual, e que o faz às vésperas de um ano eleitoral.
Para entender o alcance disso, é preciso lembrar de onde o Sul da Bahia vem. Desde que a vassoura-de-bruxa arrasou a lavoura cacaueira, no fim dos anos 1980, a região mergulhou num declínio prolongado e perdeu boa parte do protagonismo econômico de outrora, sem que nenhum ciclo posterior o restituísse por inteiro. É contra esse pano de fundo que a nova estrada ganha sentido: recolocar no mapa uma parte da Bahia que a própria história pareceu dispensar.
O palanque dizia o resto. Ao lado do governador Jerônimo Rodrigues estavam o senador Jaques Wagner, o ex-ministro Rui Costa, o deputado federal Paulo Magalhães e lideranças de quase todo o território sul-baiano. Não se reúne tanta gente graúda para inaugurar dezoito quilômetros de asfalto. Reúne-se para apresentar um projeto de desenvolvimento regional e, sobretudo, para lhe reivindicar a paternidade.
A rodovia, de cerca de dezoito quilômetros, integra um sistema viário pensado para reorganizar o tráfego entre as duas maiores cidades da região, baixar custos de transporte e devolver alguma racionalidade a um eixo econômico que há décadas trabalha no limite. Ao longo da execução, o custo subiu, à proporção que novos trechos de integração eram incorporados. Há quem enxergue nisso um planejamento que se ajusta à realidade; há quem reconheça a velha elasticidade dos orçamentos públicos. Provavelmente existe um pouco das duas coisas.
O mais importante do evento, porém, não estava no que se entregou, e sim no que se prometeu. O governador assinou a ordem de serviço do Anel Rodoviário do Banco da Vitória, que dará acesso à zona norte de Ilhéus sem obrigar o motorista a cruzar o centro, e confirmou o projeto de ligação da nova BA-649 à zona sul da cidade. Somadas à Ponte Jorge Amado e às obras recentes, essas iniciativas desenham, no papel, um corredor metropolitano integrado. A expressão "no papel" não é figura de retórica. Entre assinar uma ordem de serviço e cortar a fita de inauguração vai uma distância que a história das obras públicas brasileiras não nos deixa esquecer.
O que muda agora é a passagem da obra avulsa para o sistema. Por muito tempo, o Sul da Bahia se acostumou a receber intervenções soltas, quase sempre insuficientes, que nunca conversavam entre si. O que se anuncia é uma lógica diferente: costurar porto, aeroporto, rodovias, malha urbana e áreas de expansão econômica dentro de uma concepção única. A ambição é legítima. Se sair do papel, será transformadora.
Ainda assim, é bom fugir dos superlativos. Dizer que a região foi a que mais recebeu investimentos do Estado exigiria comparar, número a número, o que se aplicou em todas as outras, conta que o discurso oficial, por razões óbvias, não faz. O que se pode afirmar com segurança é menos grandioso, mas não é pouco: poucas áreas da Bahia reúnem hoje tantas obras estruturantes em andamento ao mesmo tempo quanto Ilhéus, Itabuna e o entorno.
Nada disso é obra do acaso. O governo Jerônimo parece ter entendido que o Sul da Bahia reúne uma combinação difícil de achar em outros pontos do estado: porto, aeroporto, malha rodoviária, turismo, agronegócio, mineração e potencial energético, tudo no mesmo território. Investir aqui não é generosidade, é cálculo: o cálculo de quem enxerga na região um ativo estratégico para a economia baiana e, não custa dizer, um eleitorado que faz diferença na urna.
Os efeitos, de resto, vão muito além do trânsito. Uma boa ligação viária derruba custos, atrai investimento privado, valoriza imóveis, aquece o turismo e abre postos de trabalho. Quando bem feita, a infraestrutura é uma das raras políticas cujos frutos sobrevivem ao governo que a plantou. Por isso mesmo ela precisa ser cobrada de perto, e não só aplaudida.
Fica de pé, como sempre, a distância entre o que se anuncia e o que se conclui. O concreto já lançado sobre o Sul da Bahia autoriza uma constatação difícil de contestar: fazia muito tempo que a região não via um ciclo de investimento público deste tamanho. Se as obras prometidas realmente saírem do papel, Ilhéus e Itabuna podem chegar à próxima década com a melhor estrutura logística de sua história. Na política, promessas produzem manchetes; obras concluídas produzem legado. O Sul da Bahia já voltou ao mapa dos grandes investimentos estaduais. Agora, a história cobrará aquilo que ela sempre cobra dos governantes: transformar anúncios em realidade e concreto em desenvolvimento permanente.
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