Resposta de governos e da OMS à Covid foi lenta demais, segundo artigo

Os governos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) agiram muito lentamente para frear o alastramento da Covid-19 e a demora resultou em milhões de mortes que poderiam ter sido evitadas, segundo artigo publicado no periódico médico Lancet.
Falhas generalizadas de prevenção, nas práticas de saúde pública básicas e de solidariedade internacional levaram a 17,7 milhões de mortes, incluindo as que não foram oficialmente contabilizadas, disse a comissão da Lancet na quarta-feira ao lançar seu estudo sobre a pandemia, feito ao longo de dois anos.
O relatório concluiu que a OMS “agiu com excessiva cautela e lentidão sobre vários pontos importantes”, incluindo a transmissibilidade humana do vírus e atribuir à epidemia o status de emergência de saúde internacional do mais alto nível. Para conscientizar o mundo do problema, a OMS começou a qualificar o surto como “pandemia” em março de 2020, cerca de três meses após a primeira infecção notificada na China, mas o termo não tem implicações legais.
O órgão mundial de saúde também demorou a apoiar a imposição de restrições às viagens para reduzir a transmissão, a endossar o uso de máscaras faciais em espaços públicos e a reconhecer a transmissão aérea do vírus, segundo o artigo. Os autores também concluíram que a coordenação entre governos foi lenta.
“O resultado foram milhões de mortes evitáveis e, em muitos países, uma reversão do progresso em direção ao desenvolvimento sustentável”, segundo o relatório.
A OMS disse que saúda as “recomendações abrangentes” do relatório, mas que o texto inclui “várias omissões e erros de interpretação cruciais”, incluindo em relação à rapidez de suas ações.
“Muitas das recomendações da comissão coincidem com as que foram recebidas nos últimos dois anos de organismos de revisão criados pela própria OMS”, ela disse.
Na quarta-feira, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, expressou otimismo em relação à pandemia. “Ainda não chegamos lá, mas o final está em vista”, disse em entrevista coletiva, exortando os países a fortalecer suas campanhas de vacinação.
O professor da Universidade Columbia, Jeffrey Sachs, que presidiu a Comissão da Lancet, disse que é hora de “encarar verdades difíceis”.
“Muitos governos deixaram de aderir às normas básicas de racionalidade e transparência institucional”, disse Sachs. “Muitas pessoas protestaram contra precauções básicas de saúde pública… E muitas nações deixaram de promover a colaboração global pelo controle da pandemia.”
Segundo o relatório, a pandemia expôs “importantes fraquezas do sistema multilateral baseado na ONU”. Ainda segundo o texto, essas falhas nascem de problemas que incluem o nacionalismo excessivo, uma falta de flexibilidade em torno das regras de propriedade intelectual, além da “erosão do apoio político à adoção de soluções multilaterais pelas grandes potências”.
O nacionalismo em torno de vacinas foi um tema muito presente nas fases iniciais da pandemia, com países mais pobres acusando países mais ricos de estocar doses em meio a uma escassez de oferta. Embora a oferta tenha começado a superar a demanda no início deste ano, o acesso a medicamentos e os índices de vacinação continuam desiguais.
Não obstante “grandes esforços” feitos para estimular a recuperação pós-Covid, a resposta insuficientemente ambiciosa é “como a resposta a outros desafios globais prementes”, incluindo a emergência climática, segundo o relatório.
“Nossa recomendação mais fundamental é o fortalecimento do multilateralismo em todas as dimensões cruciais: política, cultural, institucional e financeira”, disseram os autores no relatório. “Convocamos todos os países, especialmente os mais ricos e poderosos, a apoiar, sustentar e apoiar o trabalho do sistema da ONU.”

Donato Paolo Mancini, Folhapress
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