A Bahia não cabe numa fotografia

_A nova Genial/Quaest não decide a eleição, mas dá lastro empírico ao que a história do estado já vinha sugerindo_

Por Jerbson Moraes — advogado, mestrando em Direito e colunista

Há uma semana, ao sustentar nesta coluna que tratar o segundo turno na Bahia como desfecho inevitável exigia ignorar a história eleitoral do estado, a tese soou a muitos como contrariedade gratuita diante de um cenário que boa parte dos analistas já dava por consolidado. A divulgação da mais recente pesquisa Genial/Quaest não encerra a controvérsia — nenhuma pesquisa encerra —, mas devolve o debate ao terreno onde ele deveria ter permanecido desde o início: o da análise dos processos, e não o da leitura apressada de números isolados.

Na modalidade espontânea, aquela em que o entrevistado responde sem receber previamente uma lista de nomes, Jerônimo Rodrigues aparece numericamente à frente de ACM Neto. Na estimulada, os dois permanecem tecnicamente empatados. Tomado isoladamente, o dado não decide coisa alguma. Compreendido no conjunto, altera de forma relevante a interpretação sobre a dinâmica da disputa.

A ciência política distingue com clareza as pesquisas de intenção de voto dos estudos sobre comportamento eleitoral. A espontânea é um dos indicadores mais observados na pré-campanha porque mede aquilo que se convencionou chamar de recall político: a capacidade de um nome emergir da memória do eleitor sem qualquer estímulo externo. Não mede apenas preferência. Mede notoriedade, presença política, intensidade de lembrança, consolidação de imagem pública. Campanhas profissionais acompanham sua evolução com atenção justamente porque o reconhecimento espontâneo costuma anteceder movimentos que só mais tarde se traduzem em intenção de voto. Não há regra matemática nisso, e seria leviano sugerir automatismo. Há, contudo, uma lógica estatística conhecida: quem cresce na lembrança amplia a base sobre a qual poderá converter reconhecimento em voto ao longo da campanha. Quando um governador em exercício passa a superar, nesse indicador, um adversário de notoriedade nacional como ACM Neto, o fenômeno pede explicação — e a explicação não está na pesquisa.

Fotografia e filme

Existe um vício recorrente na cobertura eleitoral brasileira: a confusão entre fotografia e filme. Pesquisas registram um instante; análises procuram compreender a direção do movimento. Transformar um levantamento em sentença sobre o futuro é um erro de método antes de ser um erro de prognóstico.
A sustentação do artigo anterior nunca foi uma pesquisa. Foi a história eleitoral baiana — e ela é generosa em advertências. Em 2006, os levantamentos indicavam ampla vantagem de Paulo Souto, e parte do debate político tratava sua reeleição como o desfecho mais provável; a poucos dias da votação, o Ibope ainda projetava vitória do governador, e a hipótese de segundo turno era discutida como o teto do desempenho da oposição. A campanha, contudo, alterou profundamente esse cenário: Jaques Wagner venceu já no primeiro turno, com 52,89% dos votos válidos contra 43,03% de Souto, encerrando dezesseis anos de hegemonia carlista. Em 2022, repetiu-se fenômeno semelhante: Jerônimo Rodrigues iniciou a disputa muito atrás de ACM Neto em diversos levantamentos e acabou eleito governador. Nenhum desses episódios prova que a história se repetirá. Demonstram, porém, que a Bahia possui um comportamento eleitoral que recomenda cautela diante de conclusões antecipadas — inclusive as que hoje se apresentam com sinal invertido.

A ciência política não trabalha com certezas; trabalha com padrões. Quando um padrão se repete em ciclos distintos e sob conjunturas nacionais diversas, deixa de ser coincidência e passa a constituir variável de análise.

Incumbência e identidade

A literatura internacional sobre comportamento eleitoral é farta em demonstrar que ocupantes de cargos executivos tendem a ampliar o próprio reconhecimento ao longo do mandato. Governadores deixam de ser apenas candidatos: tornam-se figuras institucionalmente presentes na vida cotidiana, e essa exposição contínua costuma produzir crescimento gradual nos indicadores de conhecimento espontâneo. O avanço observado é compatível com um fenômeno amplamente estudado, não com uma anomalia estatística.
Há, entretanto, um aspecto que as pesquisas quantitativas dificilmente capturam em toda a sua extensão: a construção da identidade política. Jerônimo percorreu praticamente toda a Bahia durante o mandato e fez da presença no interior uma marca de governo. Mais relevante do que o roteiro das viagens é o que ele preservou nelas. Exerce a autoridade institucional do cargo sem abrir mão da simplicidade do homem do sertão nem da postura didática de quem foi professor por décadas. Em vez de afastar-se das origens para assumir uma figura protocolar — movimento comum a quem chega ao alto da administração estadual —, fez o percurso inverso e converteu a própria trajetória em ativo político. Num estado cuja cultura política valoriza autenticidade e identificação popular, esse tipo de vínculo costuma render mais do que qualquer peça publicitária. E é exatamente o tipo de coisa que a lembrança espontânea registra antes de a intenção de voto acusar.

A rede, não a soma dos apoios

Outro elemento decisivo é a consolidação de um campo político que governa a Bahia há quase duas décadas. Desde 2006, o grupo liderado pelo PT venceu cinco eleições estaduais consecutivas. Jaques Wagner foi eleito em 2006 e reeleito em 2010; Rui Costa venceu em 2014 e foi reeleito em 2018 — as quatro disputas decididas no primeiro turno; Jerônimo Rodrigues conquistou o governo em 2022, no segundo. Essa sequência atravessou conjunturas nacionais profundamente distintas, do auge do lulismo ao avanço do bolsonarismo, indicando uma dinâmica política estadual que não se explica apenas pela conjuntura presidencial.
A liderança nacional de Lula, a influência de Rui Costa na articulação do governo federal e o capital político acumulado por Jaques Wagner compõem menos um somatório de apoios individuais do que uma rede consolidada, com presença territorial, capilaridade administrativa e capacidade demonstrada de mobilização. Estruturas dessa natureza não produzem vitórias automáticas, mas reduzem a margem de imprevisibilidade que costuma favorecer oposições.

O que se pode e o que não se pode afirmar

A nova Genial/Quaest não autoriza afirmar que Jerônimo Rodrigues vencerá a eleição, muito menos que o fará no primeiro turno. Tampouco elimina a competitividade de ACM Neto, que segue como um dos protagonistas centrais da disputa, com base eleitoral própria, força em Salvador e capacidade de articulação nacional. O que os dados permitem afirmar é algo diferente e, talvez, mais relevante: o cenário eleitoral da Bahia tornou-se sensivelmente mais equilibrado do que muitos admitiam há poucas semanas. A liderança numérica na espontânea e o empate técnico na estimulada indicam uma disputa em movimento — e disputas em movimento não comportam interpretações definitivas.
Foi exatamente esse o ponto da coluna publicada na semana passada. Ela não pretendia antecipar os números de um levantamento específico, porque análise política não é adivinhação de pesquisas. Pretendia demonstrar que a combinação entre o histórico eleitoral da Bahia, o efeito da incumbência, a consolidação do campo governista e a construção da identidade política de Jerônimo Rodrigues tornava inadequado tratar determinados desfechos como inevitáveis. A nova Quaest não prova essa tese. Torna-a mais plausível, ao revelar uma evolução compatível com os processos políticos anteriormente descritos.
A distinção não é retórica. A boa análise não substitui as urnas nem prevê o futuro: identifica tendências e formula hipóteses que os fatos poderão confirmar, ajustar ou refutar à medida que surgirem. É justamente essa abertura à evidência que separa uma interpretação analítica de uma aposta eleitoral — e é também o que impede o analista de virar torcedor. Na Bahia, quem converte a fotografia de um instante em verdade permanente costuma ser desmentido pela urna. A prudência, aqui, não é timidez. É método
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