Descendentes na Bahia buscam ‘repatriar’ crânio de escravo da Revolta dos Malês

Foto: Reprodução

Uma comunidade muçulmana e nigeriana na Bahia está se mobilizando para trazer da Universidade de Harvard um crânio de um escravo que morreu durante a Revolta dos Malês, considerada a rebelião mais importante da história do Brasil. Misbah Akkani, membro da comunidade que afirma ser descendente do escravo, afirma que brigará pelos restos mortais do homem para lhe conceder um funeral fúnebre apropriado. As informações são do Estadão.
“É de suma importância para nós tirar esse crânio de lá e trazer para Bahia, porque a importância dele é aqui no Brasil, onde ele vivia, onde ele foi morto de forma injusta. É importante para provar que aquilo aconteceu aqui, no Campo da Pólvora, onde hoje tem um fórum de Justiça, e onde foram cometidas muitas injustiças contra essas pessoas que simplesmente estavam lutando pelo seu direito de existir”, afirma Akkani.
Se supõe que o corpo do homem foi sepultado em uma cova no Campo da Pólvora, em Salvador, no ano de 1835. Contudo, caso a documentação esteja correta, o crânio chegou nos Estados Unidos em 1836 e atualmente compõe uma coleção de 150 cabeças humanas, separadas por raça e nação, usadas por alunos de medicina da Universidade de Harvard.
Amuleto usado durante a Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835. Foto: Arquivo Público do Estado da Bahia

COMO O CRÂNIO SAIU DA BAHIA PARA HARVARD?

Apesar de soar estranho, o crânio foi enviado como um “presente”. O advogado estadunidense, Gideon T. Snow, que morava em Salvador, enviou a cabeça ao médico J. C. Howard, da Sociedade para o Aperfeiçoamento Médico de Boston.
A cabeça do homem de nome desconhecido pertenceu por anos à coleção pessoal de J. C. Howard, até que foi comprada pelo professor John Collins Warren e transferida, com todo o acervo do médico, para a Universidade de Harvard em 1847, e lá ficou.
De acordo com o historiador Christopher Willoughby, que estuda escravidão atlântica, medicina americana e racismo, e atualmente é pesquisador visitante em Harvard, a tradição de coleta de crânios para estudos raciais começou no Iluminismo, mas ganhou novos contornos no século 19, com as rotas comerciais, o colonialismo e a escravidão.
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