Nova cura de paciente com HIV não é aplicável em larga escala

Foto: Breno Esaki/Agência Saúde

Samuel Fernandes e Phillippe Watanabe
São Paulo, SP

Um quarto caso de cura da infecção pelo HIV foi anunciado na quarta-feira (27). Apesar da boa notícia em meio à pandêmica doença, especialistas dizem que a forma pela qual a remissão foi alcançada não é uma estratégia em saúde pública aplicável em larga escala.
O homem de 66 anos, que não quis revelar sua identidade, é o quarto paciente tido como curado do HIV. Ele recebeu o apelido de “paciente de City of Hope” (em tradução livre, cidade da esperança), citando a unidade de saúde City of Hope, em Duarte, na Califórnia, nos Estados Unidos, onde o homem foi tratado.
O paciente já está há 17 meses sem sinais do vírus no corpo, mesmo com a parada no tratamento com antirretrovirais. O uso dos medicamentos poderia ter sido interrompido até antes, segundo o centro de saúde, mas esperaram até o momento em que ele fosse vacinado contra a Covid.
A remissão da infecção no homem ocorreu devido ao tratamento de uma segunda doença. Por causa de uma leucemia –um câncer que atinge as células sanguíneas–, o paciente teve que passar por um transplante de medula, local onde as células sanguíneas são produzidas.
Com o transplante no horizonte, os médicos, então, buscaram um doador de medula que fosse naturalmente imune ao vírus HIV. Tratava-se, nesse caso, de uma busca genética por um doador com uma rara mutação no gene CCR5.
Esse gene produz uma proteína que, em linhas gerais, permite a entrada do HIV nas células humanas de defesa CD4+. Pessoas que receberam uma determinada mutação do CCR5 tanto do pai quanto da mãe –ou seja, são homozigotas para essa mutação– são resistentes à infecção por algumas das variantes do HIV.
O transplante ocorreu há cerca de três anos e meio. A partir disso, o paciente de City of Hope conseguiu bloquear a via de entrada do HIV em suas células de defesa e, dessa forma, acabou curado.
O mesmo processo foi usado em 2007 para o primeiro caso de cura de infecção por HIV, o paciente de Berlim, Timothy Ray Brown.
Agora, porém, trata-se do paciente com HIV mais longevo (31 anos de infecção) a alcançar a remissão após um transplante de medula. O centro de saúde City of Hope também aponta que o paciente ali tratado é a pessoa mais velha a ser curada, devido ao transplante, tanto da infecção por HIV quanto do câncer. Na época do procedimento, o homem tinha 63 anos.
Casos como esse, no entanto, não devem ser encarados como uma possibilidade factível de tratamento em larga escala.
“No caso do transplante, teve uma certa sorte do doador de medula ter a mutação e o receptor ser compatível”, afirma Aguinaldo Roberto Pinto, professor do departamento de microbiologia, imunologia e parasitologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Pinto realiza pesquisas na área de imunobiologia e epidemiologia molecular do HIV há anos. Para ele, notícias de cura como essas são muito positivas, porém é preciso ter certas ressalvas.
“Não acreditamos que isso venha a ter um impacto na maioria das pessoas. Primeiro porque para fazer o transplante de medula é preciso estar em uma situação clínica em que se necessita [da doação]”, diz. O fato de ter sido a quarta remissão documentada desde 2007 mostra a raridade da cura, acrescenta ele.
O professor explica que já é difícil encontrar um doador compatível para o paciente que precisa do transplante da medula. Dessa forma, encontrar alguém que precisaria ter a mutação que confere resistência natural ao HIV seria mais uma dificuldade no processo de doação.

“Isso não vai ser preconizado para todo mundo”, resume.

Alexandre Grangeiro, ex-diretor do programa nacional de HIV/Aids e pesquisador científico da Faculdade de Medicina da USP, também ressalta que a cura nesses casos são muito mais relacionadas a “uma conjunção de acasos do que de fato por uma intencionalidade”.
Ele explica que uma descoberta médica precisa de alguns requisitos para se tornar uma estratégia de saúde aplicável a um contingente considerável de pessoas. Um deles é que possíveis danos da intervenção não superem os benefícios. No caso de transplante de medula, esse equilíbrio poderia ser mais duvidoso em razão dos riscos que a ação traz ao paciente.
Por exemplo, existem casos de transplante em que ocorre algo chamado de “doença do enxerto contra o hospedeiro”. Ele consiste no ataque a órgãos do transplantado por parte das células da medula óssea do doador.
Mesmo assim, Grangeiro ressalta que a notícia da cura do paciente é animadora. “Esse quarto caso vem consolidar uma evidência que vinha se mostrando já bastante acertada da possibilidade de cura a partir dos transplantes de medula.”
O pesquisador ainda indica que o novo caso de remissão é um demonstrativo de que a cura da infecção é algo mais próximo desde o primeiro caso de HIV, há cerca de 40 anos.
“A cura hoje do HIV tem sido tratada como algo possível e que talvez não demore tanto tempo. É tudo muito incerto, mas há um certo otimismo”, diz.
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