Afinal, o que é endometriose?

A doença demora, em média, de sete a dez anos para ser diagnosticada, cólica menstrual incapacitante deve ser investigada


A endometriose acontece quando células do endométrio, a camada interna do útero que é expelida na menstruação, acabam se depositando fora da cavidade uterina, causando reações inflamatórias e lesões
Recentemente, a endometriose ganhou destaque nos principais veículos de imprensa após a cantora Anitta revelar ter sido diagnosticada com a enfermidade. Como mencionado no caso da famosa, que sofreu com os sintomas por nove anos, a doença é de diagnóstico desafiador por serem necessários exames específicos e um olhar clínico apurado para ser detectada. De acordo com a Associação Brasileira de Endometriose, cerca de 7 milhões de brasileiras sofrem de endometriose.
Segundo o cirurgião ginecológico Dr. Alexandre Brandão, do Hospital Brasília, pertencente à Dasa, a maior rede de saúde integrada do Brasil, a endometriose é uma doença crônica, inflamatória e hormônio-dependente. “Existe um tecido que recobre a parte interna do útero, chamado endométrio. Esse tecido, na endometriose, está fora da cavidade uterina, podendo estar nos ligamentos uterinos, nos ovários, intestino, na bexiga e no fundo da vagina”, destaca o médico.
O ginecologista explica que esses focos de endometriose recebem o estímulo dos hormônios dos ovários durante o período menstrual, por isso é uma doença hormônio- dependente. “Na endometriose, como o tecido não está dentro do útero, ele não sai com a menstruação, o que gera um processo inflamatório ao redor dele, causando muita dor. Se é no fundo da vagina, causa dor na relação sexual, se está próximo ao reto ou intestino, pode causar dor ao evacuar e, quando perto da bexiga, pode causar dor ao urinar”, esclarece Dr. Alexandre.
Os principais sintomas da endometriose são cólicas menstruais incapacitantes, ou seja, que impedem a paciente de exercer suas atividades normalmente; dor nas relações sexuais; dor para evacuar, com mudança no ritmo intestinal, geralmente próximo ao período menstrual; e dor ao urinar, muitas vezes confundida com infecção urinária. Além dos sintomas desconfortáveis, a endometriose pode ser uma das causas de infertilidade.

Diagnóstico

O caso da cantora, que esperou nove anos para receber o diagnóstico correto de endometriose, é mais comum do que se imagina. Segundo Dr. Brandão, infelizmente a endometriose demora, em média, de sete a dez anos para ser diagnosticada. Para ele, isso acontece porque muitas pessoas, principalmente da área da saúde, naturalizam as cólicas menstruais. “A primeira vez que a paciente se queixar de uma cólica menstrual incapacitante, já deve ser encaminhada para um especialista em endometriose para investigação”, afirma o médico.
Os principais exames para detectar a endometriose são a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve. De acordo com a médica ginecologista, ultrassonografista e dedicada ao estudo sobre endometriose Dra. Ana Glauce Carvalho, do Exame Medicina Diagnóstica, também pertencente à Dasa, ambos são exames com excelente sensibilidade e especificidade para a detecção da doença e não possuem radiação ionizante, por isso, não causam efeitos colaterais.
“Quando feitos por um profissional experiente, os dois exames podem levar ao diagnóstico. As estruturas posteriores ao útero (alças intestinais), por exemplo, são bem caracterizadas pelo exame de ultrassonografia com preparo intestinal, já que é possível manipular facilmente as alças com o transdutor endocavitário – aparelho de ultrassom que pode ser introduzido tanto na vagina como no reto”, afirma a ultrassonografista.
Segundo a médica, demais estruturas pélvicas também são facilmente estudadas com o transdutor, desde que haja um bom preparo intestinal (limpeza do intestino) e um profissional experiente no exame. “Com a sensibilidade e a especificidade do exame de ultrassonografia, realizado por profissional experiente e aparelho de ponta, pode-se chegar a um resultado de diagnóstico próximo a 100% para endometriose”, completa a Dra. Ana Glauce.
Para a Dra. Mayra Veloso, médica radiologista do Exame Medicina Diagnóstica, quando a endometriose é muita extensa ou a paciente é candidata à cirurgia, com necessidade de uma avaliação adicional, há indicação de ressonância magnética da pelve, que contribui muito para o diagnóstico e planejamento detalhado do tratamento. “O exame também é indicado para pacientes que, por algum motivo, tiveram o resultado negativo na ultrassonografia, mas os sintomas persistiram; em casos pós-cirurgia, quando há suspeita de a endometriose ter voltado; bem como para acompanhamento do tratamento”, ressalta a médica.
Quando há suspeita clínica de endometriose, tanto a ultrassonografia quanto a ressonância magnética são realizadas com técnica específica e dedicada para esta doença. “É muito importante compartilhar esta suspeita clínica no momento do exame, para que possamos personalizar a investigação diagnóstica”, destaca Dra. Mayra.
Por meio da ressonância magnética da pelve é possível avaliar o útero, ovário, alguns ligamentos da pelve, intestino, bexiga, vagina e a parede abdominal, por exemplo. “O exame permite um estudo muito detalhado de todos os órgãos que podem estar comprometidos pela endometriose, na pelve. Pode ainda, quando necessário, avaliar também o abdome superior, músculos abdominais e pulmões, locais que também podem ser afetados”, complementa a médica radiologista.

Tratamento

O Dr. Alexandre Brandão afirma haver duas formas de tratamento: a clínica e a cirúrgica. No tratamento clínico, algumas das opções são: bloqueio hormonal, que visa a parar a menstruação e assim aliviar as pacientes com a condição; fisioterapia e atividade física; não ingestão de alimentos que causam má digestão, gases dores abdominais, distensão do intestino; cuidados com a saúde mental. “As pressões sociais são desgastantes para as pacientes com a condição. É recomendado procurar um psicólogo, meditar e orientar os familiares para entenderem melhor a doença”, explica o ginecologista.
O tratamento cirúrgico depende também da avaliação clínica. Algumas das principais indicações são: risco de infertilidade; comprometimento de algum órgão, função do intestino, bexiga ou ureter, ou obstrução desses órgãos; dor na relação sexual; falha no tratamento clínico multidisciplinar.

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Laparoscopia ou cirurgia robótica são as indicadas pelo médico como tratamento cirúrgico para a endometriose. “Nunca é feita uma cirurgia aberta, como uma cesariana. A histerectomia também não é o suficiente para acabar com a doença. É preciso eliminar todos os focos de endometriose ou ela continuará a crescer. Mesmo após a cirurgia, é necessário um acompanhamento para o controle clínico das pacientes”, finaliza Dr. Alexandre Brandão.
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