Datafolha: 47% dizem que caso Bruno e Dom prejudicará muito imagem do Brasil fora

Os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips vão prejudicar severamente a imagem internacional do Brasil na avaliação de 47% da população, revela pesquisa Datafolha. O caso, que expôs ao mundo o clima conflagrado e o descontrole do governo na Amazônia, jogou luz sobre retrocessos da política ambiental no país sob o presidente Jair Bolsonaro (PL).
O levantamento, feito na quarta (22) e quinta-feira (23), mostra que 26% acham que o episódio afetará só um pouco a reputação do país, enquanto 17% dizem não ver prejuízo e 10% não sabem opinar.

O instituto também perguntou sobre o impacto do crime em outras duas frentes.

Sobre a interferência que o caso terá nas ações de organizações de proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas na Amazônia, a percepção de 44% é que os reflexos das mortes vão prejudicar muito essas iniciativas, 26% acham que será pouco. Outros 19% não veem repercussão, e 11% não sabem.
Questionados sobre as consequências nas ações do governo brasileiro na Amazônia, 32% afirmam que os homicídios vão prejudicar muito e 24% acham que será pouco. Uma fatia de 29% não considera haver perda, e 15% não opinam.
O Datafolha ouviu 2.556 pessoas acima dos 16 anos em 181 cidades. A margem de erro da pesquisa, contratada pela Folha e registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número 09088/2022, é de dois pontos percentuais para mais ou menos.
As perguntas sobre a corrida presidencial mostraram cenário estável para Bolsonaro em relação à rodada anterior, em maio, apesar dos desgastes em seu governo —além da comoção em torno dos assassinatos e do clima de terra sem lei na Amazônia, a crise econômica continua no colo do presidente.
Ele marcou 28% de intenções de voto (eram 27% em maio, ou seja, oscilação dentro da margem de erro), enquanto o líder da disputa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tem 47% (eram 48% um mês atrás). O governo de Bolsonaro é reprovado por 47% da população.
A avaliação de que as mortes de Bruno e Dom não irão prejudicar o Brasil em nenhum dos três aspectos sondados pelo Datafolha é significativamente superior entre aqueles entrevistados que declaram voto no atual mandatário.
Isso indica uma sintonia entre eles e o discurso do postulante à reeleição. Entre os que têm Bolsonaro como favorito na urna, 49% acham que o caso não trará prejuízo às ações do governo na Amazônia.
O mesmo ocorre no grupo que vê o governo dele como ótimo ou bom, que na população geral corresponde a 26%. Dentro da camada bolsonarista, o percentual dos que descartam qualquer impacto negativo dos homicídios é mais alto do que a média.
Uma parcela de 40% dos eleitores do presidente diz que as mortes não vão prejudicar as iniciativas de entidades ambientais e indígenas.
O estrago à imagem do país na cada dia mais relevante pauta da proteção ambiental ficou nítido ainda durante o desenrolar das buscas pelo indigenista e pelo jornalista, que desapareceram no Vale do Javari (AM) no dia 5 deste mês. Os corpos foram localizados dez dias depois.
A gestão Bolsonaro foi criticada não só por minimizar inicialmente a gravidade do episódio, mas também pela mobilização tímida nas buscas quando ainda se tratava de desaparecimento.
Entidades como o Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU, a embaixada do Reino Unido (país natal de Dom) e organizações da sociedade civil brasileira fizeram apelos por maior empenho.
No Reino Unido, terra natal de Dom, que morava no Brasil havia 15 anos, o primeiro-ministro Boris Johnson mencionou o caso durante um discurso ao Parlamento, ainda antes da confirmação das mortes, e disse que as autoridades locais estavam “profundamente preocupadas” com a situação.
Uma evidência de que o episódio piora o já deteriorado conceito do Brasil no exterior foi a publicação de reportagens a respeito do tema na mídia estrangeira com tendência de tom negativo.
O jornal britânico The Guardian, para o qual Dom colaborava, estampou a morte do repórter em sua primeira página e publicou um editorial incisivo.
Diplomatas enxergam o fato como o de maior potencial de dano à imagem brasileira dos últimos anos, conforme noticiou o Painel, a partir de relatos de membros do Ministério das Relações Exteriores. O caso reitera, por exemplo, a ideia de que o desmatamento ocorre livremente na Amazônia.
O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, pediu que o governo brasileiro dê explicações sobre as mortes e mencionou o fato de que uma das vítimas é jornalista, o que sinaliza riscos à liberdade de imprensa no território nacional.
“Nós pedimos por prestação de contas e justiça —devemos fortalecer de forma coletiva os esforços para proteger defensores do meio ambiente e jornalistas”, escreveu o porta-voz da diplomacia americana.
Price disse que os dois foram “assassinados por apoiar a conservação da floresta tropical e dos povos nativos”. O governo brasileiro não emitiu manifestação sobre o tema para a comunidade internacional.
A gestão Bolsonaro é criticada pelo desmonte de órgãos ambientais e pela falta de ações na região amazônica, ao mesmo tempo em que sustenta o discurso de que a defesa da floresta cabe unicamente ao Brasil e que outros países não devem se meter no assunto, sob risco de ameaça à soberania nacional.
Os homicídios expuseram uma série de ações criminosas e conflitos na região, que passam por pesca e caça ilegais, invasões e tráfico internacional de drogas.
Bolsonaro defende garimpos em terras indígenas e preservadas desde antes de assumir o Palácio do Planalto. Na campanha de 2018, ele prometeu que, em seu mandato, não haveria demarcações. Declarou também que daria uma “foiçada” na Funai (Fundação Nacional do Índio).
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente entre 2019 e 2021, ficou conhecido por ter usado uma frase que acabou resumindo sua agenda de afrouxamento da legislação de proteção ambiental.
Sua proposta era a de aproveitar a atenção dada pela imprensa à pandemia de Covid-19 para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.
À frente de um governo que enfraqueceu a fiscalização ambiental, Bolsonaro difunde mensagem de oposição à atuação na Amazônia de ONGs, ativistas e até mesmo órgãos de Estado, como a Funai e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
A rede de 73 organizações socioambientais que forma o Observatório do Clima divulgou no mês passado uma lista com 62 medidas emergenciais que o próximo presidente eleito deve tomar ainda nos primeiros cem dias de governo a fim de reverter as “boiadas” dos últimos tempos.
O fórum, que parte da premissa de que o atual presidente não deve ser reeleito, defende revogar decretos, reinstalar conselhos com a participação da sociedade civil, retomar a fiscalização ambiental e combater a invasão de garimpeiros em terras indígenas.
A pesquisa Datafolha mostrou ainda que o caso de Bruno e Dom ficou amplamente conhecido no país. Um total de 76% dos entrevistados diz ter conhecimento do episódio, sendo que 25% se consideram bem informados sobre ele. Já 24% das pessoas respondem que não souberam do ocorrido. ​

Joelmir Tavares/Folhapress
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