Dólar salta 4%, maior alta desde início da pandemia, e fecha acima de R$4,80 com temor global sobre juros

Em 2022, o dólar reduziu a desvalorização para 13,76%

O dólar disparou nesta sexta-feira, registrando a maior alta percentual diária desde o começo da pandemia de Covid-19, em março de 2020, em sessão em que chegou a flertar com a cotação de 4,84 reais.
O dia foi de forte ajuste de posições no câmbio, movimento ditado pelo nervosismo global que catapultou o dólar lá fora a máximas em mais de dois anos, por receios de um aperto monetário ainda mais acelerado nos EUA.
Preocupações com a economia chinesa –principal destino das exportações brasileiras– também pesaram, e tampouco ajudou renovado ruído político-institucional no Brasil, que, no entanto, investidores avaliaram como tendo impacto limitado no desenrolar do pregão desta sexta.
O dólar já estava em patamar elevado no começo da tarde, mas seguiu galgando novas máximas, o que deixou o real em posição ainda pior em relação a seus pares. A contínua escalada foi resultado do acionamento de uma série de ordens de contenção de perdas (“stop-loss”) por operadores.
A moeda, então, tocou 4,8395 reais, alta de 4,78% e cotação máxima do dia. Foi então que o Banco Central entrou em cena e anunciou o primeiro leilão de venda de dólar spot do ano. O Bacen colocou no mercado à vista 571 milhões de dólares, o que ajudou a manter o dólar afastado dos picos intradiários.
“Subir até uns 2%, 2,5% estava normal, mas a partir daí começou um problema de liquidez, uma liquidação generalizada, então o BC teve de entrar”, disse Marcos Weigt, chefe de tesouraria do Travelex Bank.
“O ‘trade’ estava muito carregado em real, foram semanas, meses de entradas na moeda. Mas na hora da saída a porta é sempre pequena, é sempre assim”, completou.
O dólar chegou ao fim do pregão no mercado à vista com alta de 4,07%, a 4,8065 reais. É o maior valor desde 24 de março passado (4,8311 reais) e a mais forte alta percentual diária desde 16 de março de 2020 (+4,86%).
Na semana, a moeda saltou 2,34%, maior ganho desde a semana finda em 19 de novembro de 2021 (+2,81%).
A alta desta sexta foi tão expressiva que reverteu a queda do dólar no mês. A moeda agora sobe 0,92% no acumulado de abril –até a sessão anterior, acumulava baixa de 3,03%.
Lá fora, o índice do dólar frente a uma cesta de divisas fortes tinha nova e forte alta e renovou picos em mais de dois anos. Na outra direção, um índice de moedas emergentes sofria a maior baixa em mais de duas semanas e desceu ao menor patamar em um mês.
Wall Street despencou, o petróleo caiu e as taxas dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos oscilaram, com investidores cada vez mais nervosos com a profusão de falas de autoridades de política monetária sinalizando necessidade de altas mais dilatadas dos juros. [.NPT]
Os comentários que mais chamaram atenção foram os do chefe do BC dos EUA, Jerome Powell, que na quinta-feira foi claro ao dizer que uma alta de 0,50 ponto percentual no juro estará “sobre a mesa” quando o Fed se reunir em 3 e 4 de maio para aprovar o próximo do que deve ser uma série de aumentos de taxas neste ano.Juros mais altos nos EUA podem drenar para o mercado norte-americano fluxos de capital hoje estacionados em outros países, como o Brasil, potencialmente desvalorizando moedas e minando ativos de risco.
Isso ocorreria num momento em que, aqui, o Banco Central parece mais próximo do fim do ciclo de aperto monetário. Profissionais do mercado comentaram que ao longo do dia a impressão de que Roberto Campos Neto, presidente do Bacen, estaria deixando de buscar a meta de inflação para 2023 causou mais alvoroço e colaborou para o mal-estar geral do mercado.
“O problema é que o resultado dessa postura ‘dovish’ (menos inclinada a restringir as condições monetárias), de torcedor, ante o pior choque inflacionário das últimas décadas só vai piorar o processo inflacionário. O banco central esta plantando torcida e colhendo a desancorarem das expectativas de inflação, inclusive das longas”, disse um gestor de uma grande instituição financeira.
“O BC está claramente adicionando vol (volatilidade) no mercado, além do externo. O externo acho que continua gerando mais vol. Quanto ao BC, está na mão dele corrigir isso ou insistir na estratégia”, finalizou.
Apesar da magnitude da alta do dólar nesta sexta, analistas ainda veem, do ponto de vista de fundamento, motivos para recuperação do real.
“Essa alta pode dar ponto de entrada para novos fluxos”, disse Joaquim Kokudai, gestor na JPP Capital, acrescentando que o ambiente global “no comparativo deveria favorecer o Brasil”, uma vez que os preços das commodities seguem altos e o diferencial de juros a favor do real é “muito grande”.
Marcos Weigt, do Travelex Bank, acredita que a semana que vem permitirá uma avaliação mais precisa sobre se o comportamento mais arisco do mercado poderá ser tendência ou não.
“Se o movimento de ‘sell-off’ (venda generalizada de ativos) continuar na semana que vem, o dólar pode ir tranquilamente para 5 reais. Mas é difícil falar que a janela fechou. Continuamos sendo bastante atrativos, o investidor em emergentes não tem tantas opções no mundo”, finalizou.
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