A morte de Sócrates: o que eu vi nos últimos dias de um dos maiores brasileiros da história

Ex-jogador morreu em 4 de dezembro de 2011, mas está eternizado na história do país que carregava no nome - Joca Madruga/Brasil de Fato

A Morte de Sócrates (em francês, La Mort de Socrate) é uma pintura feita pelo francês Jacques-Louis David, em 1787. A tela conta a história da execução de Sócrates, filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga, segundo a visão de Platão.
Nessa versão, Sócrates foi acusado de corromper a juventude de Atenas e introduzir falsos deuses. Por isso, foi condenado à morte. A história aponta que Sócrates usou o fato como uma lição final para seus pupilos. Ao invés de fugir quando teve a oportunidade, encarou a morte calmamente.
O Fedão, uma das grandes obras de Platão, retrata esse momento e tem o seguinte argumento central: a alma é imortal. Eu fui descobrir isso muitos anos depois de ter vivido com intensidade, assim como Platão, a morte de Sócrates – no meu caso, não o grego, o brasileiro.

Sócrates Brasileiro: o jogador de futebol que ousou sonhar com um mundo sem misérias

Tão brasileiro que carregava o Brasil no nome: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira morreu há exatos dez anos. Eu acompanhei e noticiei cada um dos últimos passos de sua luta pela vida, mas percebi quando aceitou o destino. Sócrates se foi. Sua alma permanece aqui.
Sócrates foi craque, inteligente e revolucionário: tudo que eu queria ter sido. É verdade que não chego perto de nenhuma dessas características, mas tenho um orgulho nessa trajetória inglória de jornalista, o privilégio de dizer que esse homem mudou a minha vida.
Ele mesmo, em carne e osso. Na verdade, era mais osso do que carne: Sócrates estava 30 quilos magro e abalado pela doença que tiraria a sua vida. Foi só nos seus últimos meses que nossas histórias se cruzaram. Era agosto de 2011, meu primeiro plantão de final de semana como repórter, quando o telefone da redação tocou.
A notícia era forte. Um dos maiores ídolos do futebol brasileiro estava internado em estado grave no Hospital Israelita Albert Einstein. Foi nesse momento que eu recebi minha primeira missão no jornalismo: cobrir cada detalhe da luta de Sócrates pela sobrevivência.
No primeiro dia na porta do hospital, entrevistei ex-jogadores e familiares que foram visitar Sócrates, dividindo espaço com dezenas de jornalistas. Nos dias seguintes, já sem a presença de outros colegas da imprensa, dividi cafés e conversas com sua última esposa, Kátia Bagnarelli.
Dessa relação de amizade, saiu a proposta: uma entrevista em que Sócrates pudesse falar de tudo, em sua casa, assim que tivesse alta. Ele saiu do hospital e, entre uma internação e outra, tive a oportunidade que transformou minha vida.
Acompanhado de dois editores do jornal, o Alexandre Lozetti e o Valdomiro Neto, fui à casa de Sócrates, em Barueri (SP), e conheci um ídolo deformado pela doença que a boemia causou. E vi, naquele dia, certamente uma das pessoas mais lúcidas e questionadoras que pude conhecer.
Assim que sua mulher abriu a porta, nós ouvimos: a música dos Beatles tocava no som, ao lado da caixinha do CD de Tom Jobim. Antes disso, ele contou que estava ouvindo Beethoven. Nas mesas de canto, os livros: da biografia de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, a Karl Marx e Nietzsche, passando por Fidel Castro e Che Guevara.
Eu lembro de ouvir: "O mais importante é a capacidade de aprendizado. Se você tem um cérebro voltado para isso, aprende em todos os momentos". Depois, ele disse que não teve medo de morrer. Contou que lutou pela vida. Mas, lá no fundo, sabíamos que parte dele já havia aceitado a partida.
"É difícil achar um guarda-chuva que aguente um meteorito. Se você tem medo de morrer, é mais fácil morrer. Briguei três meses para viver, podia ter desistido e estive perto. Mas minha luta sempre foi para viver, cada segundo, e vão me aguentar por muito tempo ainda", disse.
Foi ali que eu aprendi que o futebol – ou melhor, que a vida – só vale a pena para ser transformada, para ser questionada.
Foram mais de três horas de entrevista, foram quatro páginas de jornal, foi uma ótima repercussão. Mas foi, principalmente, a experiência que romperia uma trajetória que poderia caminhar à alienação, à indiferença.
Sócrates deu adeus ao nosso mundo em 4 de dezembro de 2011, há 10 anos, justamente em um dia de clássico contra o Palmeiras, meu time do coração. Deve ter sido só de sacanagem. Ele foi embora cedo demais, mas fez muita coisa por aqui. De minha parte, só posso agradecer. Obrigado, Doutor.

Edição: Leandro Melito

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