Jovens da periferia apostam em plataformas de streaming para ganhar dinheiro

Foto: Agência Brasil

Livia Alves
São Paulo, SP

A cantora e atriz Meduda Ferreira, 22, encontrou dificuldades para trabalhar em sua área durante a pandemia do coronavírus. Isso fez com que ela, que é moradora de São Mateus (na zona leste de São Paulo), fosse buscar as plataformas de streaming como alternativa para conseguir renda. “Infelizmente a arte não é valorizada no nosso país. Vários artistas como eu sofrem com essa situação, tendo que gastar mais para fazer a sua arte se movimentar, sem nenhuma retribuição ou colaboração”, diz.
O isolamento social impulsionou a adesão de usuários e de criadores de conteúdo em redes sociais de vídeo como Twitch (serviço de transmissões ao vivo) e YouTube, por exemplo. Meduda tem apostado no universo das lives de jogos digitais. “Em mais de oito meses de lives [no Twitch] ainda não consegui a minha monetização. O dinheiro não é meu objetivo, o dinheiro é uma necessidade para que haja uma forma de se manter dentro desse meio”, avalia.
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o desemprego entre jovens adultos de 18 a 24 anos atingiu a taxa de 29,5% no segundo trimestre de 2021. Mesmo com a melhora em comparação ao primeiro trimestre (31%), essa ainda é a faixa etária mais afetada pela falta de emprego -entre pessoas de 25 a 39 anos, o índice é de 13,8%. Outros produtores de conteúdo das periferias viram nas redes sociais uma oportunidade de ganhar dinheiro com seus vídeos e conseguir complementar a renda em uma época de crise.
É o caso do streamer Paulo Ricardo, conhecido como Schindller, 32, que mora no Parque Regina, na região do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. O conteúdo dele é voltado para histórias e FPS (jogos de tiro em primeira pessoa), como o game “Call of Duty: Warzone”, por exemplo.
Mesmo conseguindo tirar algum rendimento mensal, Paulo explica que ainda precisa de trabalhos extras para pagar as contas. “Pela nova métrica da plataforma em que realizo stream [Twitch], preciso entregar 120 horas mensais, o que daria em média de oito a nove horas diárias. Dependendo do mês, se eu alcançar as metas e receber, consigo pelo menos pagar a internet e luz”, comenta.
A situação do analista de relatório e streamer Thiago Miguel, 33, do canal Maxhell, é bem parecida. Ele trabalha com as chamadas “lives de variedades” e sua programação envolve jogos e bate-papos interativos em plataformas de streaming. “Atualmente, não consigo me sustentar como streamer, mas já estou trabalhando para isso”, observa Thiago, morador do bairro Jardim Olinda, também na zona sul.
Próximo dali, no bairro Umarizal, o estudante Julio Cesar Cobianchi, 22, criador do canal JulinhoGameplaus, comenta que nunca conseguiu tirar algum rendimento pelas plataformas Twitch e YouTube, mas continua atuando nelas. “Se eu estivesse focando 100% [nesse trabalho] eu estaria lutando por um salário que não chega nem a ser um salário mínimo. Não consigo chegar perto do saldo mínimo para saque, e agora com o novo valor do sub [inscrição] da Twitch terei que pedir doações para poder manter o projeto de ‘streamar'”, desabafa.
Além das metas que precisam ser alcançadas, streamers que estão nas bordas da cidade lidam com a falta de conexão de internet de qualidade para sustentar a live no ar ou produzir conteúdo em vídeo. “Moro em um bairro [São Mateus] distante e não temos conexões boas de internet. Além disso, é barulhento, então optei por streaming de noite”, explica Meduda. A streamer faz lives todos os dias, de segunda a domingo, com carga horária de até 49 horas por semana.
Uma saída para Paulo Ricardo foi usar a internet local. “É bem complicado uma internet de qualidade, por isso utilizo uma de bairro [Parque Regina, zona sul], que está atendendo bem até. Não consigo fazer live durante o dia pela bagunça que é”, diz ele.
Falta de diversidade Apesar do cenário aparentemente lucrativo para a Twitch e para os produtores de conteúdo, diversas reclamações, como concentração de público em grandes produtores e a falta de diversidade nas indicações feitas pela plataforma, têm se tornado um debate cada vez mais recorrente. “Atualmente tenho jogado em torno de cinco games de tipos variados, isso permite que algumas pessoas LGBTQIA+ que gostam de algum gênero específico acompanhem a produção de conteúdo”, comenta Meduda, destacando que usa esses espaços para se “expressar de forma contemporânea e consciente”.
A streamer diz se sentir desconfortável com a falta de representatividade LGBTQIA+ em jogos digitais, no entanto. “Recebi um feedback falando que é importante ter alguém do meio [LGBTQIA+] produzindo conteúdo. O mundo gamer é extremamente interessante e cômico, as pessoas podem se divertir e ser livres em um mundo totalmente fictício”, conta.
A Agência Mural contatou a assessoria de imprensa e outros canais de atendimento da Twitch para comentar as situações relatadas pelos streamers, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. A plataforma é parte dos serviços da Amazon, que também foi procurada e não retornou. Ataques e riscos da exposição O movimento de tentar uma vida profissional por meio das redes sociais vem crescendo e, com isso, atraindo olhares de profissionais da área da saúde.
A psicóloga Letícia Guimarães alerta sobre os riscos que essa exposição e a falta de engajamento podem causar. “A expectativa por resultados rápidos e por retorno financeiro, onde muitos jovens colocam a responsabilidade de mudar a vida de sua família pela internet, pode causar malefícios relevantes à saúde mental”, diz. “Depressão, ansiedade e a síndrome de burnout [esgotamento], gerado por estressores de impacto relevantes podem desfavorecer a longo prazo a qualidade de vida desses indivíduos, bem como a improdutividade [falta de criatividade, desorientação e mal-estar] e crises de pânico relacionados aos haters”, afirma.
Medula sofreu um caso de violência virtual durante uma de suas transmissões ao vivo. “Sofri ataques de uma pessoa anônima. Esse ‘ser’ começou a me xingar no chat e eu não consegui banir porque fazia lives pelo celular. Ele me denunciou tanto que a Twitch derrubou meu canal por 24 horas”, conta.
Apesar das dificuldades, a artista e streamer diz que a importância de se manter na plataforma vai além de gerar renda: é também relacionada à sua luta diária. “Tenho a resistência de estar em um espaço que me não me foi fácil adentrar. Sou travesti e essa é a minha forma de contribuição para que minha comunidade possa ganhar mais visibilidade dentro de um meio dominado pela cisgeneridade e branquitude”, declara.

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