Com Bolsonaro isolado, coalizões de empresários e ONGs tentam salvar Brasil de fiasco na COP

Uma agenda para o desenvolvimento econômico e social da Amazônia. Um conjunto de estratégias jurídicas para combater crimes ambientais. Um modelo de mercado de crédito. Todas iniciativas do Brasil a serem apresentadas em Glasgow, a partir deste domingo, 31, na Cúpula do Clima, a COP-26. Mas nenhum desses programas foi desenvolvido com a participação do governo ou faz parte do escopo dos planos oficiais.
Quando seus responsáveis sentarem com representantes de delegações, universidades e entidades estrangeiras, o que estará na mesa não será o Brasil da gestão Jair Bolsonaro, isolado politicamente, mas o da sociedade civil. Ou seja, cientistas, empresários, governadores, prefeitos, representantes de órgãos ambientais, ONGs, lideranças indígenas e do movimento negro.
Mas não só. O mercado e o setor produtivo colocaram de vez os pés na transição para outro modelo de economia, mais verde e limpa: uma amostra será o desfile de CEOs. Credenciados pelo Conselho Empresarial Brasileiro Para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), segundo a própria entidade, estão os de empresas como a Neoenergia, Bayer, DSM, Natura e BRF, além de conselheiros de bancos como o Itaú e a liderança da Microsoft Philanthropies Brazil.
O governo federal terá representantes na COP: cerca de cem membros, chefiados pelo Ministério do Meio Ambiente e com equipe da diplomacia. Mas, diante de falhas da gestão Bolsonaro em negociações globais relacionadas a mudanças climáticas, a sociedade civil decidiu tomar a frente dos debates, com receio de pouco empenho ou opções erradas do governo.

Evento é oportunidade para buscar parcerias

“Combater as ilegalidades e os crimes ambientais precisa do Estado. Mas, na ausência do governo federal estamos pautando essa questão”, diz a cientista política Ilona Szabó, presidente do Instituto Igarapé, que vai se reunir com autoridades francesas. Na COP, ela apresentará plataforma do Igarapé que reúne os principais “hot spots” de crimes ambientais na Amazônia . “O objetivo é ter métricas concretas sobre os casos”, diz.
Sem apoio do governo federal ou de iniciativas como o Fundo Amazônia, que aplicava verbas estrangeiras e foi paralisado na gestão Bolsonaro, a cúpula é ainda uma oportunidade para grupos da sociedade civil mostrarem resultados de ações para proteger os biomas e negociar parcerias com interlocutores de fora do País.
Ilona integra o grupo Uma Concertação pela Amazônia – que reúne mais de 200 líderes, como o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga; o ex-ministro da Fazenda e diretor do Banco Safra Joaquim Levy; o fundador da Natura, Guilherme Leal; e o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito. Vale ainda citar o cineasta João Moreira Salles e a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira. “A sociedade brasileira chega à COP com essa maturidade, que nenhuma outra terá”, diz Izabella. Para alguns setores econômicos, como o agronegócio, reparar danos à imagem do País é fundamental para não perder clientes nos próximos anos.
E, pela segunda vez, o Brazil Climate Action Hub, que reúne entidades da sociedade civil, terá espaço na COP para apresentar iniciativas e políticas públicas desenvolvidas no País. Um dos fundadores da Concertação, Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú, pondera que “a comunidade internacional, depois da era (Donald) Trump, relativizou o papel dos governos como negociadores”.
Exemplo disso é o entrave da regulação do mercado internacional de crédito de carbono, um dos temas centrais desta COP. Ambientalistas, empresários, mercado financeiro e gestores públicos esperam que o Brasil ajude a aparar arestas entre as nações e não coloque empecilhos. Entre eles está o ex-ministro Levy, que se dedica ao tema. Ele não vai a Glasgow, mas espera que o chamado livro de regras do Acordo de Paris seja finalizado e o artigo 6, que cria o mercado global de carbono, se resolva. “Para mim, este deve ser o grande objetivo do Brasil.”

Polarização atrapalha, diz diretora da CNI

Não à toa, o desenvolvimento desse mercado também é uma das expectativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e um dos itens listados em carta enviada ao governo pela entidade. Os outros pontos em que pede empenho são a mobilização de financiamento e transferência de tecnologia, além do desenvolvimento de planos de adaptação à mudança climática.

Para a diretora de Relações Institucionais da CNI, Mônica Messenberg, o mercado vai se impor no desenvolvimento da questão. Estado à parte, diz ela, o que atrapalha é a polarização ideológica que se junta ao tema ambiental – no País e no exterior. “Estamos perdendo uma oportunidade (de protagonismo da economia verde). É questão de Estado, não de governo”, diz ela, que se reunirá com empresários e representantes de governos na COP.

Governadores também se mobilizam

“A ausência e o negacionismo do governo federal foram um impulso para a criação do Consórcio Brasil Verde”, diz o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), presidente da entidade que reúne 22 dos 27 governadores brasileiros. Dez deles devem passar pela COP-26. Na pauta, a pressão pela aprovação da regulação do mercado internacional de crédito de carbono e encontros bilaterais com delegações estrangeiras para apresentar modelos de políticas públicas ambientais de seus Estados. “Queremos que o Brasil seja protagonista na redação do texto do mercado de carbono”, diz ele, que terá encontros com governantes de outros países e empresários alemães.
Para Casagrande, o Brasil chega à COP fragilizado por uma política ambiental errática, mas diz que a pressão da opinião pública pode reverter isso. “Não pode chegar lá e pedir dinheiro para preservar. Vai precisar assumir compromissos”, afirma.

Emilio Sant’Anna / Estadão

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