Sob pressão, Lula avalia ida a protesto contra Bolsonaro, mas aliados temem contaminação eleitoral

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia a possibilidade de comparecer à manifestação nacional contra o presidente Jair Bolsonaro marcada para sábado (19) e, até ontem, quarta-feira (16), ponderava tanto conselhos contrários quanto favoráveis à sua presença nas ruas.
A tendência, segundo pessoas próximas ao petista ouvidas pela Folha, era que ele descartasse a hipótese, diante do risco de contaminar eleitoralmente a mobilização, convocada por partidos como PT, PSOL e PC do B, centrais sindicais, movimentos sociais, organizações estudantis e coletivos progressistas.
Embora em público exista apoio à participação de Lula, nos bastidores se revelou o temor de que o gesto possa servir de combustível para a narrativa bolsonarista que busca tachar os protestos da oposição como evento de apoio ao petista, maior rival de Bolsonaro para as eleições de 2022.
Um dos argumentos que desincentivam a ida foi apresentado por quadros do PT ligados à área da saúde e que acompanham o avanço da pandemia da Covid-19. O alerta foi o de que seria impossível evitar aglomerações em torno do ex-presidente em um ambiente público.
Lula, que retornou a São Paulo após compromissos políticos no Rio de Janeiro, provavelmente iria ao ato previsto para as 16h na avenida Paulista. O petista não apareceu nos protestos convocados pela oposição em 29 de maio, que viraram a maior manifestação contra o governo durante a pandemia.
No debate de agora, uma avaliação é a de que uma imagem do ex-presidente cercado por apoiadores, ainda que todos de máscara, sinalizaria desrespeito às recomendações. Isso respingaria negativamente no discurso adotado pelo petista para se contrapor ao negacionismo de Bolsonaro.
Auxiliares fizeram a ponderação de que colocar um aparato de segurança para impedir a aproximação de simpatizantes seria uma tarefa difícil e poderia piorar a situação no meio da multidão, provocando empurra-empurra e até acidentes.
Por outro lado, há pressão de aliados que veem contradição na hipótese de ele endossar a ida às ruas, mas se ausentar. Para essa ala, a eventual participação precisa ser dissociada do pleito de 2022 e traduzida, na verdade, como engajamento pessoal do petista em uma questão imediata.
Bolsonaro minimizou o impacto das marchas de maio ao dizer que “teve pouca gente” nelas porque faltou maconha e dinheiro para os manifestantes. “Você pode ver esses movimentos agora, o último foi sábado ou domingo, do PT, ninguém na rua”, afirmou. “Faltou erva para o movimento”, ironizou.
Promover atos de rua em plena pandemia foi um dilema que provocou debate em setores da esquerda nos últimos meses, mas a divergência de opiniões foi superada no mês passado, com as convocações para o dia 29 que atraíram milhares de pessoas em 210 cidades do Brasil e em 14 países.
A expectativa na Campanha Nacional Fora, Bolsonaro, que centraliza a organização e reúne frentes como a Povo sem Medo, a Brasil Popular e a Coalizão Negra por Direitos, é a de que a rodada de protestos de sábado seja maior e mais ampla, já que a lista de forças engajadas na realização aumentou.
As principais bandeiras são o impeachment de Bolsonaro, o pedido de mais vacinas contra a Covid-19 e o pagamento de auxílio emergencial de R$ 600. As pautas foram definidas por centenas de organizações, que têm buscado unidade de discurso e se blindado contra atritos que comprometam a coesão.
Até esta quarta-feira (16), estavam confirmados 319 atos no país e no exterior, entre passeatas e carretas. A orientação é para que os participantes usem máscara (preferencialmente do tipo PFF2), se possível levem máscaras para doação, carreguem álcool em gel e mantenham o distanciamento social.
O envolvimento de Lula nas mobilizações foi discreto até aqui. Ele não convidou seguidores para o ato do dia 29 (o que o PT começou a fazer às vésperas da data) nem comentou, em um primeiro momento, a realização dos protestos. O assunto foi ignorado por ele nas redes sociais.
Uma postura mais incisiva foi ensaiada na segunda-feira (14), quando o diretório nacional do PT aprovou a decisão de participar formalmente das convocações para pressionar pelo impeachment. Na ocasião, Lula disse que avaliava divulgar um vídeo convidando para os atos, mas isso segue em aberto.
“É com luta social que vamos pressionar a Câmara dos Deputados a abrir o processo de impeachment de Bolsonaro, pelos inúmeros crimes de responsabilidade que cometeu, confirmados pela CPI da Pandemia”, afirmou o partido em nota.
A cúpula petista classificou “as expressivas manifestações” como “um fato novo e importantíssimo na luta” por vacinas, auxílio emergencial e “pelo fim do governo genocida de Bolsonaro”.
Apesar do discurso, reservadamente ainda impera um clima de ceticismo em relação ao impeachment, já que o titular do Planalto conta hoje com a blindagem do centrão na Câmara dos Deputados e do presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), a quem cabe desengavetar um dos 114 pedidos protocolados.
O PT nega que as menções ao impeachment na nota demonstrem uma guinada na atuação da sigla e diz que o tema sempre esteve entre suas prioridades, o que contraria a tese segundo a qual que a legenda teria o interesse de “sangrar” o presidente para que ele chegue desidratado à eleição.
Em fevereiro, antes de sua reabilitação eleitoral, Lula afirmou que não havia tempo hábil para a conclusão de um processo contra Bolsonaro. Em entrevistas posteriores, no entanto, o ex-presidente disse que já eram conhecidos motivos suficientes para depor o adversário e culpou Lira pela falta de reação.
Lula disse a uma rádio do Piauí, na semana passada, que as instituições precisam deter o presidente. “Ou tem um relatório da CPI que peça punição a Bolsonaro, ou a Câmara pega um dos processos de impeachment e coloca em votação”, afirmou.
Indicando ser favorável aos protestos, ex-presidente afirmou que “somente o povo pode resolver o problema da ingovernabilidade do Bolsonaro”.
“O povo está frustrado, muito decepcionado. Obviamente que o coronavírus fez com que o povo ficasse dentro de casa, sem se manifestar, com medo, mas eu acho, sabe, que nós precisamos ir para a rua e cobrar que este país seja governado decentemente”, avaliou.
Aliados de Lula consultados pela Folha disseram, sob anonimato, que desencorajaram a ida do ex-presidente por temerem que o gesto dê conotação eleitoral às mobilizações. O apelo é para que o levante seja identificado como uma iniciativa da sociedade e agregue setores ideológicos variados.
Nas palavras de um militante, o líder petista “não tem nada a ganhar indo às ruas, mas tem a perder”. Os organizadores trabalham para evitar fragmentações, principalmente no momento em que a convocação ganha a adesão de correntes de outros partidos, como PDT, PSB e Rede Sustentabilidade.
“Minha opinião é a de que Lula deveria gravar um vídeo e deveria ir. E acho que essa é a opinião do PT”, afirmou o secretário de comunicação do partido, Jilmar Tatto. Ele prega que o ex-presidente sustente na manifestação seu discurso em prol de vacinas, da vida e do impeachment, sem falar de eleição.
“Não podemos deixar de ir para a rua contra o governo. No PT isso está pacificado”, completou Tatto.
A posição oficial da campanha Fora, Bolsonaro é a de que o ex-presidente “é sempre bem-vindo”, já que concorda com as causas levantadas. De acordo com a assessoria, “o ato tem uma bandeira clara” pela saída de Bolsonaro, e todos os que compartilham dessa vontade são acolhidos.
O presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Iago Montalvão, também declarou não ver problemas na adesão. “Toda participação deve ser bem-vinda”, disse ele, que é filiado ao PC do B.
“A nossa opinião é que todo o mundo tem que ir para a rua, para mobilizar, fortalecendo essa luta. E os dirigentes dos partidos têm que dar o exemplo”, afirmou a presidente do partido UP no estado de São Paulo e porta-voz da coalizão Povo na Rua, Vivian Mendes.
O presidente municipal do PDT em São Paulo, Antonio Neto, que planeja estar na avenida Paulista, disse à Folha que particularmente não vê problema na eventual participação de Lula. O aliado do presidenciável Ciro Gomes (PDT), porém, considera o risco de o gesto afugentar antipetistas.
“Não temos nenhuma restrição a ninguém. Nossa luta é contra o Bolsonaro. Mas talvez a presença dele [Lula] possa desestimular a participação dos que não querem nem Lula nem Bolsonaro, a maioria da população brasileira”, disse Neto, que também preside a CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros).
O ex-prefeito Fernando Haddad, que disputou a Presidência pelo PT em 2018 e é pré-candidato a governador de São Paulo em 2022, confirmou a intenção de ir à Paulista no sábado. A presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, que esteve no ato de maio, deverá comparecer desta vez em Curitiba.

Colaborou Carolina Linhares, de São Paulo
Joelmir Tavares/Folhapress

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