Camaleão político, Otto Alencar imprime marca assertiva na CPI da Covid e se cacifa para 2022

Com o dedo indicador em riste, ele dispara críticas contra o presidente Jair Bolsonaro e faz inquirições na CPI da Covid, tratando desde a negociação da compra de vacinas até questões mais comezinhas como a diferença entre um vírus e um protozoário.
O tom duro dos seus questionamentos, contudo, contrasta com o cerne de sua atuação política, marcada pela ginga que aprendeu como aluno aplicado de Mestre Bimba, o criador da capoeira regional.
Aos 73 anos, o senador Otto Alencar (PSD-BA) já foi de tudo na política: deputado estadual, conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, vice-governador do estado por duas vezes e governador por oito meses.
Em sua trajetória, atuou como uma espécie de camaleão político. Foi um dos mais fiéis aliados do ex-senador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) até se tornar, nas palavras do senador Jaques Wagner (PT-BA), um “amigo de dentro de casa” dos principais líderes petistas do estado.
“Sempre tive uma gratidão muito grande a ACM, que sempre foi muito correto e nunca errou comigo. Mas, depois que ele morreu, me senti à vontade para buscar um caminho diferente”, justifica Otto.
Médico ortopedista, ele despontou para a política nos anos 1980, a partir de seu trabalho voluntário no hospital das Obras Sociais Irmã Dulce. Em 1985, foi candidato a vice-prefeito de Salvador na chapa liderada por Edvaldo Brito (à época no PDS), único negro que já foi prefeito da capital baiana.
Naquela ocasião, Otto saiu derrotado das urnas, mas se cacifou para a eleição seguinte, quando foi eleito deputado estadual pelo PTB. Emendou três mandatos na Assembleia Legislativa da Bahia até 1998, quando se elegeu vice-governador na chapa liderada por César Borges, então no PFL.
Em 2002, com a renúncia de Borges para disputar o Senado, Otto chegou ao auge da sua trajetória política, tornando-se governador entre abril e dezembro. Na época, era filiado ao PL.
O período foi curto, mas conturbado. Foi justamente em seu governo que eclodiu o escândalo dos grampos, no qual ACM foi apontado como mandante de escutas ilegais de adversários políticos feitas a partir da Secretaria de Segurança Pública. Otto sempre negou participação no caso.
Na época, uma CPI chegou a ser criada para investigar o caso. Otto chegou a ficar na mira da oposição, mas a maioria governista na Assembleia Legislativa baiana foi determinante para que ele passasse ao largo das investigações.
Três anos depois, também esteve na mira da CPI da Ebal, criada para investigar um rompo no orçamento da estatal que cuidava de uma rede de supermercados públicos da Bahia. Mais uma vez, suas boas relações políticas fizeram com que ele não fosse convocado a depor.
Após o seu mandato como governador, Otto assumiu a Secretaria de Indústria e Comércio na gestão do governador Paulo Souto (PFL). Deixou o governo no final de 2004 para assumir o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, corte responsável por julgar as contas das 417 cidades baianas.
Na época, adversários atribuíram a saída da política partidária a uma tentativa de blindagem: no tribunal, ele passaria a ter foro no STJ (Superior Tribunal de Justiça). Outros compararam a partida como uma espécie de geladeira imposta pelo então senador ACM.
Otto nega as duas versões e afirma que a ida ao Tribunal de Contas foi um caminho natural. Ficou seis anos na corte, onde notabilizou-se pela boa relação com prefeitos, mas diz que não se adaptou ao cargo: “Não nasci para ser juiz”.
Foi resgatado para a política partidária em 2010, pelas mãos do então governador Jaques Wagner, que o convidou para ser candidato a vice-governador na sua campanha pela reeleição.
A jogada foi determinante para Wagner reequilibrar o tabuleiro político na Bahia após o rompimento com Geddel Vieira Lima (MDB), na época ministro do governo Lula (PT). Ao se referir a Otto, Wagner dizia ter buscado “o camisa 10 do outro time”, numa referência ao grupo de ACM.
Os seis anos de Tribunal de Contas fizeram com que ele mergulhasse na micropolítica, em um trabalho de formiga junto a prefeitos e líderes locais. Com excelente memória, tem na cabeça o cenário político de cada município baiano.
Construiu uma rede de relações sólidas no interior da Bahia, que inclui parcerias políticas e amizades com quem divide algumas de suas principais paixões: cavalos, vaquejadas e modas de viola.
Mesmo fora do TCM, Otto manteve boas relações nas cortes de contas da Bahia. Tem uma das filhas empregadas no Tribunal de Contas do Estado pelo conselheiro Gildásio Penedo, que é marido de uma sobrinha do senador.
Depois de quatro anos como vice-governador e secretário, chegou ao Senado em 2015 com o apoio ostensivo de Wagner, do hoje governador Rui Costa (PT) e de Lula.
Do ex-presidente, Otto afirma ter gratidão. “Ele me apoiou em 2014 e foi decisivo para a minha eleição. Isso, para mim, sempre será motivo de gratidão e reconhecimento.”
Diz que não teria dificuldade em apoiar uma nova candidatura de Lula em 2022. Sua atuação na esfera federal aponta nessa direção: mesmo quando seu partido, o PSD, endossou Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (sem partido), Otto manteve postura de independência —em 2016, votou contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).
Na esfera local, diz ser candidato à reeleição no Senado pela Bahia, mas seus aliados começam a insuflar uma possível candidatura ao governo do estado diante da vitrine política que ganhou na CPI.
Um dos maiores entusiastas da candidatura ao governo é o também senador Angelo Coronel (PSD-BA), um de seus aliados mais próximos, que tem dito que a Bahia precisa de uma nova alternativa para além do PT de Wagner e do DEM do ex-prefeito de Salvador ACM Neto.
Otto afirma que vai trabalhar para manter unido o grupo político, mantendo a parceria com o PT, e que não cogita uma candidatura ao governo na oposição. Por outro lado, diz que seu nome está à disposição, caso este grupo entenda que ele é a melhor opção para concorrer ao governo.
“Eu tenho palavra, nunca declinei de um compromisso. Serei firme nas minhas posições a respeito da minha aliança com o PT, assim como fui claro quando era aliado de ACM. Nunca vacilei.”
Para os próximos meses, a meta é permanecer na linha de frente das investigações sobre a atuação do governo Bolsonaro na pandemia.
O senador afirma estar convencido de que há pelo menos três crimes tipificados na atuação do governo federal, incluindo uma suposta ação deliberada em busca da imunidade de rebanho e também na omissão na compra das vacinas.
Otto diz que manterá sua postura assertiva na CPI, mesmo após ter sido alvo de críticas, de informações falsas e até ameaças de militantes bolsonaristas nas últimas semanas.
Tal nível de agressividade é uma novidade para o senador que sempre fez da boa vizinhança a sua forma de fazer política. Mas ele diz não se incomodar: “Isso faz parte. Pode ter certeza que não me tira um segundo de sono”.

João Pedro Pitombo/Folhapress

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