DEM enfrenta divisão interna, sofre baixas e prepara contra-ataque para eleições de 2022

Partido perdeu só neste mês prefeito do Rio, vice-governador de SP e um ex-presidente da Câmara.

Depois de sair fortalecido das eleições municipais, com crescimento no número de prefeitos e vereadores, o Democratas enfrenta um cenário de divisão interna, bate-cabeça nas decisões, conflitos entre caciques e baixas nos estados.
Em pouco mais de 40 dias, o partido perdeu um governador, um vice-governador, um prefeito de capital e entrou em litígio aberto com um ex-presidente da Câmara dos Deputados.
Na semana passada, a legenda sofreu um duplo baque nos dois maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, o vice-governador Rodrigo Garcia trocou o DEM pelo PSDB em um movimento orquestrado pelo governador tucano João Doria.
Com planos de disputar a presidência, Doria pavimentou o caminho do vice para concorrer ao Governo de São Paulo e tentar manter uma hegemonia dos tucanos no estado, intacta desde 1995.
O movimento gerou uma reação dura do DEM. Em uma rede social, o presidente nacional do partido e ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, criticou a postura desagregadora de Doria.
Na mesma semana, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, anunciou que vai trocar o DEM pelo PSD e deve levar junto o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia.
Em uma série de mensagens nas redes sociais na semana passada, Maia atacou frontalmente ACM Neto, a quem chamou de oportunista e malandro. Os ataques resultaram em um pedido de expulsão do deputado do partido.
Ambos se desentenderam durante as eleições do Congresso, em fevereiro, quando o DEM decidiu liberar os deputados para escolherem entre Baleia Rossi (MDB-SP), candidato de Maia, e Arthur Lira (PP-AL), aliado de Bolsonaro.
Outra baixa importante aconteceu, sem alarde, no início de abril. O governador do Tocantins, Mauro Carlesse, que havia se filiado ao DEM em 2019 e tornou-se um fiel aliado de Bolsonaro, trocou o partido pelo PSL para ser candidato ao Senado.
Líder do DEM na Câmara dos Deputados, o deputado federal Efraim Filho (PB) diz considerar naturais os movimentos recentes de desfiliação de quadros importantes do partido.
“Foram movimentos de acomodação, é natural. O Democratas cresceu muito e continuará sendo um protagonista das agendas do Brasil”, afirma o deputado.
Ele diz que, apesar das baixas, a legenda permanece unida. Na semana passada, os principais líderes do DEM reuniram-se na casa do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).
A reunião teve como objetivo analisar a conjuntura, alinhar posições e traçar planos para o futuro. Foi definido que o partido deve anunciar até junho o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta como pré-candidato ao Planalto.
Mesmo com a busca de um alinhamento, a atuação do DEM tem sido marcada por uma divisão entre os caciques alinhados a Bolsonaro e os não alinhados e por uma falta de direção clara quanto aos rumos da legenda.
Na CPI da Covid, por exemplo, a sigla é representada pelo senador Marcos Rogério (RO), ardoroso defensor do presidente. Na última quinta-feira (20), o DEM chegou a postar em rede social que os posicionamentos do senador sobre a pandemia não representam o partido. Horas depois, a mensagem foi apagada.
Em privado, caciques do DEM próximos a Bolsonaro criticam os sinais trocados e creditam a um suposto centralismo de ACM Neto no comando do partido.
A afirmação é refutada por Efraim Filho: “Se tem uma característica que faz bem ao DEM é o fato de ele não ter um dono. As coisas são construídas coletivamente”. Procurado, ACM Neto não atendeu aos pedidos de entrevista da Folha.

Para a eleição de 2022, o partido tem dois caminhos como os mais prováveis.

Um deles é manter a candidatura de Mandetta, que serviria como uma espécie de vitrine nacional do partido.
Outra opção seria repetir a fórmula de 2002, ano em que o então PFL declarou neutralidade na disputa presidencial após parte da legenda romper com Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
O apoio ao PSDB não está descartado, mas é menos provável se o candidato do partido for Doria. Já uma possível aliança com Ciro Gomes encontraria resistência na maioria dos diretórios estaduais do DEM.
De certo, há apenas a certeza que o partido terá como prioridade ampliar a bancada no Congresso e eleger governadores.
Cinco pré-candidaturas a governos estaduais estão postas. O senador Marcos Rogério, em Rondônia, e o governador Ronaldo Caiado, em Goiás, são os mais próximos a Bolsonaro.
Mauro Mendes, governador de Mato Grosso que deve disputar a reeleição, teve rusgas com o presidente e adotou um tom mais crítico em relação à pandemia. É a mesma linha de ACM Neto, pré-candidato na Bahia.
Também deve concorrer ao governo o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, em Santa Catarina, estado que tende a ter múltiplos palanques bolsonaristas.
Enquanto a eleição não chega, parte da bancada se movimenta para deixar a legenda na próxima janela partidária.
Além de Rodrigo Maia, outros quatro deputados federais já anunciaram a intenção de sair: Carlos Gaguim (TO), Elmar Nascimento (BA), Sóstenes Cavalcante (RJ) e o deputado licenciado Pedro Paulo (RJ).
No caso de Elmar, a saída será consensual: o deputado deve assumir o comando do PSL baiano, movimento que interessa aos planos de ACM Neto.
Já Sóstenes Cavalcante, ligado à bancada evangélica, disse em abril que deixaria o partido alegando distanciamento ideológico. Um dos motivos que fez o deputado dizer que sairia do partido foi a criação do Democratas Diversidade, núcleo do partido voltado para a defesa de minorias.
Procurado, o deputado disse que pode continuar no DEM se tiver autonomia para deliberar sobre a pauta da diversidade em seu estado. Com a saída de Maia, ele pode assumir o controle do diretório do Rio de Janeiro.
O Democratas Diversidade é uma iniciativa do comando do DEM para tentar consolidar uma imagem mais suave do partido e neutralizar a postura mais conservadora que marcou o período de oposição aos governos petistas.
Em 2009, por exemplo, a legenda chegou a ingressar com uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) contra as cotas raciais na Universidade de Brasília.
A gestão de ACM Neto na Prefeitura de Salvador, entre 2013 e 2020, serviu como uma espécie de laboratório nesta tentativa de modernizar a imagem do DEM. Na prefeitura, ele aprovou cotas raciais em concursos públicos municipais e criou um centro de referência LGBTI+.
Contudo, ao buscar reforçar a agenda por políticas afirmativas dentro do partido nacionalmente, encontrou forte resistência da ala conservadora.
Para suprir as possíveis perdas, o DEM está em conversas para atrair ao menos seis deputados federais de estados como Ceará e Santa Catarina. Também mira nomes para candidaturas majoritárias.
Em São Paulo, o principal no radar é o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que pretende concorrer ao governo paulista pela quarta vez, mas enfrenta resistência de Doria.
No Nordeste, o DEM também tenta atrair o prefeito de Petrolina (PE), Miguel Coelho (MDB), filho do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) e potencial candidato ao Governo de Pernambuco.
Outro nome na mira do DEM é o do presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas, Marcelo Victor (Solidariedade), considerado homem-chave na sucessão no berço eleitoral dos Lira e dos Calheiros.

João Pedro Pitombo / Folha de São Paulo

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