Potenciais candidatos nas eleições de 2022 terão palanque antecipado na CPI da Covid

Randolfe Rodrigues, Senador (Rede-AP)

Criada na terça-feira (13) no Senado, a CPI da Covid deve se firmar como uma vitrine para senadores que são potenciais candidatos nas eleições do próximo ano.
Dos 11 membros indicados por blocos partidários como titulares da CPI, 6 podem disputar governos estaduais e 2 devem concorrer à reeleição ao Senado em outubro de 2022.
A CPI irá investigar ações e omissões da gestão Jair Bolsonaro na pandemia e a aplicação de verbas federais repassadas aos estados. Foi criada após determinação do STF, medida que irritou o presidente e provocou novo desgaste na relação entre os Poderes.
Por tratar da pandemia da Covid-19, assunto mais relevante do país no momento, e por acontecer em um ano pré-eleitoral, a CPI tem um cenário ideal para ampliar o capital político de seus membros.
Nas sessões da comissão, eles terão um espaço para demonstrar capacidade de trabalho, defender aliados e fustigar potenciais adversários nos estados.
Na CPI da Covid, o principal membro do campo governista será o senador Ciro Nogueira (PP), que comandará a parte da tropa de choque de Bolsonaro na comissão, atuando como uma espécie de anteparo para preservar o presidente.
Em meio de mandato, o senador é pré-candidato ao Governo do Piauí no próximo ano e, com o apoio de Bolsonaro, tentará romper a hegemonia do grupo do governador Wellington Dias (PT), que trabalha o nome do secretário estadual Rafael Fonteles (PT) para a sucessão.
Outro membro governista da CPI que já anunciou publicamente que pretende concorrer à eleição do próximo ano é o senador Jorginho Mello (PL), pré-candidato ao Governo de Santa Catarina.
Na CPI, Mello terá a oportunidade de mirar a artilharia contra o governador afastado Carlos Moisés (PSL), que é alvo de um processo de impeachment pela compra, sem licitação, de 200 respiradores que nunca foram entregues.
Carlos Moisés foi afastado do cargo pela segunda vez em março deste ano. Desde então, quem comanda o estado é a vice-governadora Daniela Reinehr (sem partido), que é aliada de Jorginho Mello.
Também governistas, os senadores Eduardo Girão (Podemos) e Marcos Rogério (DEM) podem concorrer, respectivamente, aos governos do Ceará e de Rondônia em 2022.
Eleito de forma surpreendente em 2018, Girão deve ser o nome da oposição no Ceará e polarizar nas urnas com o candidato da base do governador Camilo Santana (PT), ainda não definido.
Girão foi o senador que propôs e colheu assinaturas para a criação de CPI da Covid para investigar estados e municípios, que acabou sendo unificada com a comissão criada para investigar o governo federal.
Ao justificar sua posição de apurar estados e municípios, Girão mirou Camilo Santana e o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (PDT), um dos nomes cotados para disputar a sucessão no Ceará em 2022.
“Existem indícios de desvios dos recursos para o enfrentamento ao coronavírus em alguns entes federativos, inclusive no Ceará”, disse Girão, citando como possível alvo de investigação a compra pelo Consórcio Nordeste de respiradores que foram pagos, mas não foram entregues.
Ele ainda citou suspeitas de fraudes na construção do hospital de campanha do estádio Presidente Vargas, obra tocada pela Prefeitura de Fortaleza.
Dentre os sete nomes de partidos independentes ou de oposição que vão compor a CPI, dois podem disputar os governos estaduais e dois devem concorrer à reeleição ao Senado no próximo ano.
Um deles é Eduardo Braga (MDB), senador em meio de mandato pelo MDB que é pré-candidato ao Governo do Amazonas no campo de oposição ao do governador Wilson Lima (PSC), que é aliado de Bolsonaro.
Lima foi alvo de uma operação da Polícia Federal após a compra de respiradores considerados inadequados e com suspeita de sobrepreço por meio de uma adega importadora de vinhos de Manaus.
O Amazonas também enfrentou um colapso na saúde no início deste ano, inclusive com falta de oxigênio nos hospitais para pacientes com Covid-19.
Com postura independente no Senado, Braga é encarado como um nome mais palatável ao Planalto, que não terá maioria na CPI, para assumir um dos postos de comando da comissão, seja a presidência ou a relatoria.
A estratégia é evitar que senadores como Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Renan Calheiros (MDB-AL), críticos recorrentes do presidente, ocupem cargos de destaque e aumentem o desgaste que a investigação pode provocar.
Na oposição frontal a Bolsonaro, o senador Randolfe Rodrigues está em meio de mandato e pode ser candidato ao Governo do Amapá.
Desde o início da pandemia, ele tem evitado falar sobre a corrida eleitoral, mas aliados afirmam que o seu nome é o mais forte da oposição para enfrentar o grupo do governador Waldez Góes (PDT).
O senador Renan Calheiros (MDB) não será candidato no próximo ano, mas a CPI será a grande oportunidade para ele retomar parte do prestígio que já teve nacionalmente, sendo presidente do Senado por três vezes.
Esta retomada é crucial para manutenção do poder de seu grupo político em Alagoas, onde o seu filho, o governador Renan Filho (MDB), encerra seu segundo mandato e ainda não tem um candidato natural à sucessão.
A visibilidade também serviria como um contraponto ao avanço do deputado federal Arthur Lira (PP), que ganhou espaço em Alagoas após ter sido eleito presidente da Câmara dos Deputados.
A CPI ainda deve ter nomes como Humberto Costa (PT-PE), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Otto Alencar (PSD-BA) e Omar Aziz (PSD-AM), que foram indicados pelos blocos partidários. Os dois últimos estão em fim de mandato e devem disputar a reeleição para o Senado no próximo ano.
Ligados ao governo Bolsonaro: Ciro Nogueira (PP-PI), Jorginho Mello (PL-SC), Eduardo Girão (Podemos-CE), Marcos Rogério (DEM-RO)
Independentes ou de oposição: Eduardo Braga (MDB-AM), Renan Calheiros (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM), Otto Alencar (PSD-BA), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Humberto Costa (PT-PE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP)​

Distribuição das vagas na CPI da Covid:

MDB, PP e Republicanos: 3 titulares e 2 suplentes
PSDB, Podemos e PSL: 2 titulares e 1 suplente
DEM, PL e PSC: 2 titulares e 1 suplente
PT e PROS: 1 titular e 1 suplente
PDT, Cidadania, Rede e PSB: 1 titular e 1 suplente​
PSD: 2 titulares e 1 suplente
Senadores suplementes: Jader Barbalho (MDB-PA), Luis Carlos Heinze (PP-RS), Angelo Coronel (PSD-BA), Marcos do Val (Podemos-ES), Zequinha Marinho (PSC-PA), Rogério Carvalho (PT-SE), Alessandro Vieira (Cidadania-ES)

João Pedro Pitombo/Folhapress

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