Manifesto de presidenciáveis sinaliza aliança, mas diferenças persistem



O manifesto de seis presidenciáveis sinaliza pela primeira vez um embrião de alianças possíveis para 2022, mas todos os seus signatários estão cientes de que as diferenças de objetivos por ora os mantêm separados.
Segundo a Folha ouviu de pessoas ligadas à confecção do texto “Manifesto pela Consciência Democrática”, o que motivou o grupo foi a necessidade de marcar a entrada no debate público num momento agudo de crise e sob o domínio narrativo da polarização entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
O nome do candidato três vezes à Presidência foi uma ideia de Mandetta, que se destacou ao romper com Bolsonaro devido à sua condução negacionista da pandemia da Covid-19, crise que até aqui gerou 315 mil mortes no país. Como o pedetista é desafeto público de Doria, coube a Mandetta procurá-lo —acabou localizando-o pelo celular da mulher de Ciro. Em poucos minutos, o texto foi aprovado pelo pedetista. Aliados de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o ex-presidente que passou os últimos anos buscando um nome centrista viável, se animaram. Ninguém gosta especialmente de Ciro, dado que ele é visto com um radical de centro-esquerda dado a populismos. Mas todos lembram que ele já foi tucano e próximo do cacique do partido no Ceará, o senador Tasso Jereissati. Assim como já foi ministro de Lula, embora hoje nutra horror ao PT, que negou acordo com ele no pleito de 2018.
A entrada de Ciro na equação daquilo que antes se autodenominava Centro Democrático e agora virou Polo Democrático, para não ferir sensibilidades progressistas que reclamam de sua coloração de centro-direita, muda o nível do jogo. A crise do momento ajudou. Apesar de diferenças, todos os envolvidos se filiam a correntes democráticas claras, e o país vivia uma crise militar sem igual desde que Ernesto Geisel demitiu seu ministro do Exército por tentar reverter a abertura da ditadura, em 1977. Na segunda (29), Bolsonaro demitiu seu ministro da Defesa, Fernando Azevedo, por não concordar com a politização exigida pelo chefe das Forças Armadas, o que inclui na prática sugestões golpistas como o uso do “meu Exército” contra medidas restritivas visando conter a pandemia.
No dia seguinte, os três comandantes entregaram os cargos e foram demitidos por Walter Braga Netto, o sucessor de Azevedo que na mesma tarde emitiu nota falando em “celebrar” o golpe de 1964, que completou 57 anos na quarta. Foi, segundo integrantes do grupo, a gota d’água para a confecção do texto que, cuidadoso, fala da defesa democrática sem citar nomes.
De todo modo, ninguém, nos partidos envolvidos, está contando com algo mais do que sinalização de alianças possíveis em 2022. O importante, disse um articulador do grupo, teria sido “colocar o bloco na rua”.
O denominador comum agora é que, desde que Lula foi restaurado no jogo pela decisão do ministro Edson Fachin que lhe devolveu direito a ser candidato, a percepção do mundo político foi de um embate inevitável entre o petista e Bolsonaro.
Assim, o manifesto foi lido até por petistas e bolsonaristas como um sinal de que alguma placa tectônica se mexeu na corrida para 2022, ainda que publicamente as palavras sejam de deboche.
Os óbices óbvios são as desconfianças mútuas. Apesar de ter se retraído nas últimas semanas e buscado uma atitude mais de consenso, sinalizando inclusive que pode disputar a reeleição em São Paulo, Doria é visto como o jogador mais ativo do time.
No PSDB, o movimento antecipado por seu rival Aécio Neves (MG) de deixar a sigla sem candidato em 2022 pode ter adeptos na Câmara, onde a bancada tem fortes características de centrão, mas causou reações mesmo de pessoas que torcem o nariz em relação ao governador paulista.
No grupo em torno de FHC, o nome de Doria virou quase um consenso devido a seu trunfo político encarnado na vacina Coronavac e na gestão que faz da pandemia, mesmo com os escorregões conhecidos.
Essa ala gosta muito de Leite, o jovem governador gaúcho de 35 anos que se ofereceu para as prévias de outubro do PSDB, mas crê que ele ainda está cru para uma disputa nacional.
O outro presidenciável óbvio é Ciro, que está em campanha desde 2018, quando amealhou 12,47% dos votos no primeiro turno. Seu racha com o PT parece impossível de ser revertido e ele, mesmo se colocando numa centro-esquerda do espectro político, parece disposto a conversar.
Se isso pode ser uma costura para primeiro turno, é bastante difícil de predizer. Mas há a certeza, diz um cacique do PDT, que apenas um nome deveria se apresentar de fato entre Bolsonaro e Lula —obviamente, ele quer que seja o do cearense. 
Os outros nomes têm situação mais fluida. Mandetta é visto por quase todos partidos do Polo, Centro ou outro nome que venha a ter, como o vice ideal que, de quebra, remendaria o DEM após a implosão decorrente do apoio de boa parte da bancada do partido a Arthur Lira (PP-AL) à chefia da Câmara.
A chegada do centrão ao Planalto e à chave do cofre de emendas na figura da Secretaria de Governo entregue nesta semana a Flávia Arruda (PL-DF) também cimentou no grupo a certeza de uma blindagem contra eventual impeachment de Bolsonaro.
Huck, nome quase publicamente “in pectore” de FHC, hoje cada dia mais é visto como um candidato a ficar no lugar de Fausto Silva na Globo.
Mas é um ator ativo da trama, e surpresas acontecem. Leite, como dito, é peso-pena tucano ainda, embora quem o defenda veja nisso uma vantagem para construir um nome em 2026. E Amoêdo é um coadjuvante que tem eleitores na avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo.
Ausente ficou um apoiador da turma, o ex-ministro Sergio Moro, que apoiou mas não assinou o texto alegando questões contratuais com a consultoria que o emprega. Antes presidenciável, Moro está sob pressão por ter sido declarado suspeito ao condenar Lula, e é avaliado mais como um apoiador valioso. Os próximos passos são algo incertos. A avaliação do grupo foi de que o manifesto foi um sucesso, mas isso não implica um texto por semana. A modulação ainda está por vir, e será definida no grupo de WhatsApp montado.
Além das pretensões pessoais, há a preocupação em não gerar atritos excessivos nas estruturas partidárias, mantendo um palanque retórico ativo.
Há a certeza de que a solução da crise militar por Bolsonaro é temporária, e que mais turbulência se avizinha. Por outro lado, há certeza, calcada por percepção aferida em pesquisas, de que a solução Lula é restrita a talvez 30% do eleitorado —fatia igual à que apoia Bolsonaro. Como alcançar os 40% restantes é o desafio que o grupo vê à frente, isso se chegar unido até lá. Igor Gielow/Folhapress
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