Cenário eleitoral com Lula em 2022 embaralha tabuleiro político no Nordeste

A retomada da elegibilidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —com a anulação de suas condenações no âmbito da Lava Jato e a sua possível candidatura à Presidência da República em 2022— embaralhou as costuras para a disputa de governos estaduais, com impacto mais visível no Nordeste.
A avaliação é que o petista, que tem alta popularidade e já era encarado como forte cabo eleitoral, ganhou ainda mais peso no tabuleiro político caso protagonize a disputa pelo Planalto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
O novo cenário resultou em mudanças de estratégias, acelerou o lançamento de pré-candidaturas no campo lulista e deixou alguns dos aliados de Bolsonaro de partidos do centrão em compasso de espera, aguardando os próximos passos para decidir qual rumo tomar.
As costuras estarão amarradas ao cenário nacional e passam por fatores como a popularidade de Bolsonaro na eleição, o fôlego do crescimento político de Lula e a capacidade dos partidos de centro-esquerda e centro-direita em construir uma alternativa viável ao Planalto.
“A retomada dos direitos políticos do presidente Lula impacta a política brasileira de maneira geral. Ele está com muita disposição e aberto para conversas com os segmentos diversos da sociedade, compreendendo a complexidade do nosso país”, afirma o senador Rogério Carvalho (PT-SE).
Nos estados do Nordeste, a avaliação é de que o retorno do presidente ao tabuleiro político fortalece o PT e aliados nas costuras para as disputas por governos estaduais: “Lula tem legado. É óbvio que ninguém vive só disso, mas o legado é um lastro, uma credencial”, avalia o senador.
O PT, que governa quatro estados do Nordeste, já tem pré-candidatos aos governos da região em, ao menos, três locais: Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte.
Na Bahia, estado governado pelo partido há 15 anos, a decisão pela elegibilidade de Lula fez com que o PT antecipasse o anúncio do senador e ex-governador Jaques Wagner como pré-candidato ao governo.
Na costura definida, o governador Rui Costa (PT) ficaria até o fim do mandato e não seria candidato a nenhum cago, abrindo a vaga da disputa ao Senado para Otto Alencar (PSD) buscar a sua reeleição.
Jaques Wagner deve enfrentar nas urnas o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (DEM), em uma disputa que oporia dois dos principais protagonistas da política baiana na última década.
Com a alta rejeição do presidente Jair Bolsonaro na Bahia, a tendência é que ACM Neto se coloque como oposição ao presidente. Por isso, dentro do DEM, ele defende a construção de uma terceira via que passa por conversas inclusive com nomes mais à esquerda, como Ciro Gomes (PDT).
Nas últimas semanas, o ex-prefeito de Salvador endureceu o tom das críticas a Bolsonaro, questionando a atuação do presidente no enfrentamento à pandemia da Covid-19. A estratégia é, desde já, tentar neutralizar um provável discurso do PT na campanha, que tentará ligar o ex-prefeito de Salvador a Bolsonaro.
Aliados de ACM Neto avaliam que a provável candidatura de Lula à Presidência dificulta o objetivo do ex-prefeito de Salvador de chegar ao governo do estado. Mas ponderam que o cenário poderia ser pior se o candidato petista ao Planalto fosse o governador Rui Costa.
A tendência é que, ancorado em um candidato à Presidência de um partido de centro, o DEM baiano fuja da nacionalização da campanha, buscando novos enfoques na construção do discurso.
Um deles será uma espécie de embate geracional: com 42 anos, o ex-prefeito de Salvador buscará se apresentar como uma novidade frente a Jaques Wagner, 70, que junto com Lula, 75, reeditaria a mesma dobradinha das eleições de 2002 e 2006.
Os petistas, por sua vez, dizem acreditar que a alta popularidade de Lula e Rui Costa será suficiente para o grupo se manter no Governo da Bahia, sem maiores sobressaltos.
Nos demais estados nordestinos, o PT deve disputar os governos do Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, com possibilidade de também concorrer em Pernambuco e Ceará.
No Rio Grande do Norte, a governadora Fátima Bezerra disputará a reeleição, enquanto no Piauí, o governador Wellington Dias trabalha o nome do secretário estadual da Fazenda, Rafael Fonteles. No caso de Sergipe, o pré-candidato é o senador Rogério Carvalho.
Nesses casos, contudo, a orientação é evitar movimentações políticas mais bruscas neste primeiro semestre, pelo menos enquanto a pandemia permanecer em seu cenário mais crítico.
No Ceará, governado há sete anos por Camilo Santana (PT), a sucessão ainda depende das conversas com o PDT, principal aliado do governador petista. O partido ainda estuda candidaturas em Pernambuco, com a deputada federal Marília Arraes.
Em Pernambuco, a volta de Lula ao tabuleiro estremeceu a aproximação de PSB e PDT em torno da provável candidatura de Ciro Gomes. Dirigentes do PSB já falam abertamente que uma possível composição com o PT não está descartada e que esta seria positiva para as duas partes.
Parlamentares influentes do PSB pernambucano e pessoas próximas ao governador Paulo Câmara (PSB) avaliam que a entrada de Lula no jogo eleitoral de 2022 fragiliza a possibilidade de aliança do partido com o PDT.
Mesmo após uma campanha municipal bastante acirrada entre João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), na qual o antipetismo foi usado com intensidade na propaganda eleitoral, há entre os socialistas o sentimento de que é possível um reposicionamento do partido.
A avaliação predominante é de que uma candidatura mais ao centro, a exemplo de Ciro Gomes (PDT), encontraria dificuldade para criar musculatura eleitoral. Por outro lado, a alta popularidade de Lula no estado facilitaria o caminho para manutenção da hegemonia do PSB em Pernambuco, que já dura 14 anos.
Nas redes sociais, após decisões que beneficiaram o ex-presidente Lula, Paulo Câmara fez postagem de apoio ao petista.
Historicamente, Pernambuco tem peso bastante elevado nas decisões do partido. Em 2018, por exemplo, após entendimento entre Lula e Câmara, o PT conseguiu nacionalmente neutralidade do PSB no primeiro turno da eleição presidencial.
A oposição ao PSB em Pernambuco tende a apostar em nomes novos, mas de famílias com tradição na política, para construir um discurso de renovação.
O principal nome é o do prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (MDB), filho do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB). Há negociações em curso para que ele migre para o DEM. Outro nome é o da prefeita de Caruaru, Raquel Lyra (PSDB), filha do ex-governador João Lyra Neto.
Dentre os partidos do centrão, a palavra de ordem é aguardar e analisar qual será o cenário daqui a um ano.
“Tem que ver o que vai acontecer. A força do presidente Lula no Nordeste é inconteste, ninguém questiona isso. Mas o presidente Bolsonaro também terá trunfos se a vacinação avançar e se a economia voltar a crescer”, resume o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA).
Por enquanto, o PL tende a caminhar com Bolsonaro, mas nada impedirá uma revoada de parte dos parlamentares e candidatos majoritários em direção a Lula, especialmente no Nordeste.
No Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP) é pré-candidato ao governo. Publicamente, diz que mantém o apoio ao presidente e chegou a afirmar que avalia a elegibilidade de Lula como benéfica a Bolsonaro na disputa eleitoral. Por outro lado, passou a fazer críticas pontuais ao presidente, afirmando que ele “perdeu a narrativa” das vacinas.
Em seu estado, fez movimentações para atrair novos aliados: convidou o ex-senador João Vicente Claudino (PTB) a filiar-se ao PP. Opositores de Ciro Nogueira, contudo, veem a aproximação como uma tentativa de construção de um plano B para a oposição no Piauí.

João Pedro Pitombo e João Valadares/Folhapress
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